Melo Morais Filho
Festas e tradições Populares


José Alexandre Melo Morais Filho
 
Festas e tradições Populares do Brasil
 
1901

 

Festas Populares


A Festa do Divino (Corte)

Até o ano de 1855, nenhuma festa popular no Rio de Janeiro foi mais atraente, mais alentada de satisfação geral.Referem antigos cronistas que as festas do divino foram instituidas em Portugal pela Rainha Santa Isabel, e escritores do século XVI as descrevem, bem como Heitor Mendes Pinto na sua Imagem da vida cristã.

Não abandonando nunca as suas terras natalícias mas viajando em nossos climas, êsses folguedos impregnaram-se aqui de aromas sutís, expandiram-se em manifestações mais variadas, tendo como figurantes troncos primitivos ou seus descendentes imediatos, que deviam entrar por alguma coisa na metamorfose do molde metropolitano, sempre uniforme e monótono nos Açores, Coimbra, etc.

E que não só a linguagem, porém os usos e costumes europeus, passando-se para a América, adquiriram mais suavidade e riqueza.

Na época em que fazemos passar esta festa (1853-1855), em três freguesias desta capital armavam-se impérios e coretos : -- na do Espírito Santo, na de Mataporcos, na de Santana, no campo do mesmo nome, e na Lapa do Destêrro, que representava a freguesia da Glória.

As músicas de barbeiros, que eram compostas de escravos negros, recebendo convites para as folias, ensaiavam dobrados, quadrilhas, fandangos...

O povo, prelibando delícias infalíveis, passeava no campo, assistindo à edificação das barracas, à construção do império e dos coretos, à colocação das bandeiras e das arandelas, e ao orlamento do copinhos de côres, com que fantàsticamente iluminava-se a frente da igreja de Santana, mais tarde demolida para fazer-se a estação da estrada de ferro
de Pedro II.

Quarenta dias antes do domingo do Espírito Santo, a banda dos pretinhos, precedendo ruidosa turma, parava no largo da Lapa, defronte de um império de pedra e cal, que existia no lugar onde atualmente levanta-se um prédio de dois andares -- e aí tocava escolhidas peças de seu resumido repertório.

Ao passo que a música extasiava os circunstantes e reunia tôda a gente, dois negros possantes perfuravam o chão com avalancas pesadas e pontudas. Findo êsse trabalho, fincava-se o clássico mastro, encimado por uma pomba de madeira recentemente prateada, flutuando um pouco abaixo a bandeira do Divino, com as suas douraduras brilhantes e seus matizes vivíssimos.

E a foguetaria estourava, repicavam os sinos, os barbeiros feriam os seus instrumentos, e os foliões, que até então conservavam-se quietos misturavam aos sons da instrumentação marcial o rufo acelerado dos tambores, os tinidos dos ferrinhos, o tropél das castanholas e o chocalhar dos pandeiros, com que acompanhavam as suas cantigas :

A pombinha vai voando,
A lua a cobriu de um véu
O Divino Espírito Santo
Pois assim desceu do céu.

Os foliões eram rapazes de nove a dezoito anos, trajavam igualmente, cantavam quadrinhas ajustadas ao religioso motivo, pedindo pelas ruas da cidade esmolas para as despêsas do culto.

Dois irmãos da confraria os acompanhavam, vestidos de opa. Um conduzia pela mão um imperador, que era um menino de oito a doze anos, vestido de casaca vermelha, calção e chapéu armado ; outro, com uma espécie de custódia, no centro de qual havia uma pomba esculpida, adiantava-se para as pessoas que a beijavam, e apresentando uma sacola de belbutina encarnada, recolhia as esmolas dos devotos.

Nos ranchos, um rapazola ia com a bandeira, sendo as vestimentas de todos casaca e calção escarlates com galões de ouro, colete de sêda branca debruado de côres; sapatos baixos de fivela, chapéu de feltro de copa afunilada e abas largas, ornado de fitas, distinguindo-se o porta-estandarte por vestuário mais pomposo e pelo grande tope de flôres, pregado no chapéu, de forma diferente.

E a folia dobrada, pulando, brincando, dansando, cantava :

O Divino pede esmolas
Mas não é por carecer,
Pede para experimentar
Quem seu devoto quer ser.
Meu Divino Esp’rito Santo
Divino celestial
Vós na terra sois pombinha
No céu pessoa real

A folia de Mataporcos, reproduzindo cerimonial idêntico, tomava para outras bandas, aguçando a curiosidade dos habitantes do bairro, que chegavam à porta e às janelas para vê-los e ouvi-los :

Andamos de porta em porta
De todos os moradores
Pra festejar o Divino
Cobri-lo todo de flôres
O Divino Espr’ito Santo
hoje vos vem visitar
Vem pedir-vos uma esmola
Pra seu império enfeitar

Depois dêstes e de um sem número de versos, o irmão de opa, erguendo a bolsa em que os devotos osculavam a imagem simbólica, a retirava, ao tinir das moedas de prata ou de cobre, que caíam, dos contribuintes piedosos e francos.

Diàriamente saíam êsses alegres e festivos grupos, visitando cada qual a sua paróquia.

Os foliões de Santana eram mais avultados, descreviam mais amplo itinerário, recolhiam maiores donativos.

Antecedidos sempre pela música de barbeiros, acompanhando com instrumentos múltiplos as suas tradicionais canções, a colheita das esmolas estabelecia relações diretas dom as maravilhas dos festejos.

E os foliões, contentes da lida, arrufavam, correndo com o dedo, os leves pandeiros, batiam ferrinhos, rufavam tambores, bailando em infantis descantes 

O Divino Espr’ito Santo
É pobre, não tem dinheiro
Quer forrar um império
Com fôlhas de cajueiro
Rua abaixo, rua acima,
Rua de canto a canto,
Rua que por ela passa
O Divino Espr’ito Santo.

Os impérios e coretos, fabricados de sarrafos e lona pintada, estavam a concluir-se ; nas barracas do campo, os carpinteiros e pintores, trepados em escadas, pregavam tábuas, estendiam dísticos, miravam os painéis que reproduziam grosseiramente as representações do interior ; e, por entre os galhardetes, as bambinelas, troféus e bandeiras, avistavam-se, em desenho flamante e incorreto, cenas acrobáticas, um bezerro de cinco pernas, trabalhos de equilíbrio, exercícios equestres, etc.

O campo de Santana sintetizava o grosso da função. Na direção da rua de S. Pedro, em frente ao quartel, alongava-se uma linha de barracas com as suas cumieiras, que semelhavam à noite pirâmides de fogo o tétos inciendiados ; e nos portais da rua e aos balcões, os vendedores de sortes, de entradas e de comidas, estendiam o braço, gesticulavam, gritavam como possessos, ensurdencendo os transeuntes.

As músicas estrondavam de dentro, as famílias e o povo formigavam defronte, e como uma chuva de pirilampos que se abatesse dos ares, as lanterninhas de fôlha com vela de vintém, das quitandeiras sentadas, faiscavam ao largo, alumiando nos taboleiros e bandeijas os louros manauês, as cocadinhas brancas e os bolinhos de aipim, feitos com esmêro e asseio pelas laboriosas e inestimáveis doceiras daquele tempo.

Desde o escurecer, era realmente deslumbrante aquele cenário. Naquela praça enorme, a fileira das barracas parecia um muro alvo lavrado pelas chamas ; a multidão com suas vestimentas pitorescas, apinhada no chafariz que aí existia, ou movendo-se em grupos, lembrava um quadro de mestre da escola veneziana ; ao ombro das montanhas descansava
a abóbada do firmamento, e a igreja de Santana, com a sua tôrre caiada, destacava-se ao fundo, num céu calmo e estrelado.

O famoso império, o coreto e o palanque do leilão, ao lado do templo, cintilavam de luzes, agitavam os bambolins.

Os espectáculos das barracas constituiam o divertimento predilecto de metade do público, que os frequentava com assiduidade.

A cavalgada de um dos circos de cavalinhos preludiava, ao mesmo tempo que as folias, a festa do Divino.

Tôdas as manhãs, a partir das onze horas, a troupe exibia-se nas ruas, com seus cavalos de raça, seus artistas adestrados.

O pessoal completo da companhia, em garbosos ginetes enfeitados de fitas, passeava pela cidade, anunciando o espetáculo da noite.

Precedidos por dois clarins, o bando entrava ordinàriamente pela rua de S. Pedro, caminhando a passo e avivando a atenção.

Airosamente inclinadas em selins de banda, duas dansarinas de corda, fantasiadas com luxo, refreiavam cavalos fogosos, fustigando-os oportunamente.

A estas sucediam-se vários artistas vestidos como nos circos, tendo por selins o acolchoado especial para os exercícios equestres.

Dentre êles gozavam de merecida celebridade o português Jacinto, que pulava por dentro de arcos, e seu irmão, vulgarmente conhecido por bem-te-vi, ginasta assombroso e incessantemente vitoriado nos saltos mortais por sôbre sete e nove cavalos.

Fechando o prestito, vinham dois macacos banzando de um lado para outro em dous lindos pequiras, o diretor da companhia, e o palhaço Joaquim, por antonomásia -- o Facerice.

Vestido de clown, de costas para o pescoço de uma égua baia, de pé e fazendo trejeitos, o gracioso palhaço arrastava após de si uma ranchada de moleques, que, tumultuosos, batendo palmas compassadas, estabeleciam com ele extravagante diálogo e formavam côro.

E o Faceirice, dominando de tôda a altura séquito, erguendo as mãos, arregalando os olhos, escancarando a bôca pintada de vermelho, ao soar dos guizos de suas mangas de bicos e de seu chapéu de pierrot, principiava :

-- Moleque !...

-- Sinhô !

-- A moça é bonita ?

-- É, sim Sinhô...

-- Tem vestido de babado ?

-- Tem, sim, Sinhô...

-- A rapadura é coisa dura

-- É, sim sinhô...

E assim por diante, terminando isto pelo invariável estribilho :

-- Ora, bate, moleque ! ora, bate, coió !

Com o fim de manter a ordem, um ou mais pedestres, munidos de grossas chibatas, guarneciam a onda, distribuindo às vezes perdidas lambadas, que moderavam os excessos de entusiasmo dos dilettantis em alarido.

Quanto as luminarias acendiavam-se, o campo regorgitava de curiosos e de gente que comprava sortes, ceiava nas barracas, caminhava ao acaso e recebia entradas.

Na sua tribuna aérea, o Chico-Gostoso apreogava ofertas, improvisa versos patuscos, com a sua opa escarlate, com a sua salva de prata :

Quem tiver o seu segredo
Não conte a mulher casada
Que a mulher conta ao marido
O marido a camarada...

-- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, dou-lhe tudo desta vez ! -- Eram as palavras que os écos espalhavam pelo espaço, com as gargalhadas da multidão, que aplaudia-lhe as lembranças felizes e o logro dos -- segredos.

As bandas de música faziam-se ouvir por tôda a parte. Os saltimbancos, aos gritos nos circos, provocavam “bravos” e palmas dos espectadores em delírio.

Nas barracas de MM. Bertheaux e Maurin, a ginástica e os quadros ao vivo, de reproduções históricas, tornavam-se tentação irresistível para as pessoas que, depois de apreciarem as magistrais execuções da banda de fuzileiros, que tocava na varanda, iam deleitar-se a mais não poder, em presença dos proclamados quadros impressionistas.

Não menos frequentada era a barraca do M. Foureaux, com as suas cenas mímicas, suas pirâmides humanas, seus volteios equestres, onde os artistas Carlos Varin e Batista Foureaux executavam exercício de bolas, equilibravam-se em garrafas, desempenhando igualmente admiráveis evoluções em argolas volantes.

Esta companhia contava em seu grêmio duas estrêlas de considerável grandeza -- Mlles. Jeni e Serafina.

Muitas corôas lhe foram atiradas aos pés, muitos amores adejaram tímidos por sôbre as suas formas cinzeladas, muito poeta inspirou-se no seu olhar encantador.

E de boa fonte esta quadra, que lhes encarecia o mérito :

A Jení, sempre aplaudida,
Fará passos graciosos ;
Serafina, sôbre a corda,
Seus saltos dificultuosos.

Não obstante todos êsses sucessos, a barraca das Três Cidras do Amor levava de vencida a tôdas as outras, não só pela originalidade das representações, mas ainda pela variedade e distinção de seus frequentadores.

E quem a frequentava ?

A plebe e a burguesia, o escravo e a família, o aristocrata e o homem de letras.

Nos anais das nossas festas populares, a barraca do Téles, ficará solitária no merecido renome.

A barraca das Três Cidras do Amor, ou barraca do Téles, campeava em último lugar, quase fronteira do império.

O seu aspecto era modesto, o letreiro que a entesteirava era ilustrado de três cidras monstruosas, pintadas a óleo nas duas extremidades, e um triângulo de pequenas bandeiras, enfiadas numa corda, formava-lhe o frontão simples e alígero.

No salão regular e pouco confortável, em longos bancos fixos e tôscas varandas, instalavam-se, nas noites de recita, centenas de espectadores, ávidos de emoções agradáveis.

Por ocasião dessa festa, compreende-se que todos procuravam divertir-se, entrando os espectáculos do Téles no número de suas procuradas distrações.

O cenário da barraca não era extenso; proporcionamente dividido, sòmente uma quarta parte destinava-se ao célebre teatro de bonecos, restando as demais para as representações de comédia, cantorias de duetos, mágica e ginástica.

Na companhia não havia damas: para desempenhar tais papeis, dois ou três rapazolas imberbes vestiam-se de mulher, salvando com habilidade a ilusão cênica.

O que é verdade, é que o galã Pimentel, o Monclar, o Vasques e Pinheiro Júnio tiveram como seu primeiro mestre o empresário das Três Cidras do Amor, e quando de lá saíram foi para entrar no caminho da arte, das letras e da glória.

O Téles era um homem de estatura regular, acaboclado, cheio de corpo e pernas inchadas. Gozando dos favores públicos, simpatizado geralmente, engraçado a fazer rir as pedras, os seus espectáculos arrastavam a maior concurrência.

Muitas noites, Magalhães, Gonçalves Dias, Porto Alegre, José Antônio, o bacharel Gonçalves, Paula Brito, a Petalógica em pêso iam apreciá-lo, coroá-lo em cena, no debique mais inofensivo e insuflador.

A João Caetano chamava êle de colega, consultava a respeito da compreensão da arte, sôbre os trajos dos personagens e interpretação das partes.

Uma vez, o impagável Téles, assistindo à representação da Nova Castro, depois de felicitar o imortal ator que desempenhara o papel de D. Pedro, disse-lhe no camarim, no intervalo de um dos atos :

-- O senhor agradou-me tanto, que deu-me vontade de imitá-lo. Mas, como vestir-me para disfaçar o defeito das pernas ?

-- Colega, de botas e batina, respondeu-lhe João Caetano.

noite, a feira do campo excedia-se em marés de povo no fluxo de refluxo, em vozerias dos pregoeiros, em luzes, músicas e divertimentos.

O estalo dos chicotes nos circos, o repique dos sinos de Santana ao terminar o Te-Deum, as pachucadas do Chico-Gostoso apreogando um pão-de-ló ou uma galinha, e a multidão em tropel que acompanhava ao império o imperador do Divino, o Porta-estoque e os foliões no centro de quatro varas encarnadas, imprimiam a essa festa um cunho de relêvo brilhante, como as esculturas arquitectônicas da Idade Média.

O teatro de Téles era iluminado a velas e a azeite; pagava-se 500 reis de entrada, incluindo neste preço o bilhete da rifa; tinha, além da orquestra para o grande divisão do cenário, uma outra de violão, flauta e cavaquinho, que tocava oculta, quando dansavam os bonecos.

Depois da ouverture -- uma valsa ou uma polka -- subia o pano. Como introdução à noite artística, o Téles esquipàticamente vestido, aparecia, engolia espadas, comia fogo, fazia mágicas...

E nem lhe faltavam aplausos e muitos agrados.

Descendo o pano e subindo de novo, representava-se O Judas em sábado de Alelúia, por exemplo ; havia ginástica, cantava-se a ária do capitão Matamouros ou cousa semelhante, como conclusão da primeira parte da recita.

O Téles, nas comédias do sublime Pena tinha seu valor, por isso que era um homem totalmente inculto e gracioso, como os protagonistas das comédias de costumes do Molière cá da terra.

A maior soma de seus triunfos não consistia pròpriamente nessas cenas de sobra originais do nosso teatro nacional, porém no dueto O Meirinho e a Pobre, O miudinho e na dansa de bonecos, entremeada por êles de chulas lascivas, de repentes petulantes, de saracoteiros inimitáveis.

Quando o Téles transpunha o palco, encasacado de meirinho, e começava, desenrolando uma corda, ao avistar a pobre :

Tanto pobre na cidade Não ‘stá má vadiação...

o auditório enchia com uma gargalhada o recinto, a rapaziada aclamava o artista, João Caetano batia palmas victoriando-o.

Isso devéras o animava, pois retribuindo com o seu esfôrço a generosidade pública, despicava-se no fado do fim do ato, bamboleando, cantando, requebrando-se, puchando a fiera, ondulando as nádegas a estenuar-se, aos -- Bravo de Téles ! -- Corta jaca ! -- Mete tudo ! -- Bota abaixo ! -- da multidão calorosa, que ria-se, gritava, batia com as mãos até os derradeiros rumores dêsse dansado nacional e eletrizante do povo brasileiro.

Em um dêsses momentos, coroou por pândega o gênio de nossa cena dramática ao saudoso histrião, de quem tão vivas recordações ainda persistem na lembrança de tantos contemporâneos que o conheceram e apreciaram.

Com a inconstância das bandeiras ao vento, as peças da barraca variavam, e com elas todo o espectáculo. Era imutável, porém, a representação de bonecos, que constituia a segunda parte do espectáculo.

Justamente nisso brilhava o nosso Téles por espírito e mostrava real habilidade. O povo, que retirava-se nos intervalos, precipitava-se na ocasião do sinal para o espectáculo dos bonecos. Amainado o tumulto, o Manèzinho arpejava lá dentro no seu violão, o Zúzú feria com a palheta as cordas do cavaquinho e o Ferreira tangia a sua flauta sonorosa...

Levantava-se o pano, e ao som de plangente melodia, cantava o Téles :

Abra-se o céu,
Rasguem-se as nuvens !
Apareça a cena
Cheia de luzes !...

É inútil descrever a impressão produzida entre os espectadores, desde que se erguia a cortina, desde que retalhavam o ar, a desaparecer nas bambolinas, os cordões motores das saltitantes figuras.

Iniciava quase sempre essas récitas A Roda de Fiar, diálogo entretido pela Fiandera e o Caboclo, personagem forçado a tôdas as representações.

O Caboclo, que era o fiel reprodutor das pachuchadas do Téles, crescia do tablado, vestido de calça branca, camisa arregaçada, colete encarnado, pulando-lhe à cinta uma cabacinha, e munido de um fação, que agitava continuamente, nas dansas, nas ameaças, nas investidas, conforma as situações.

Na Roda de Fiar êle entrava, irritando a pequena boneca em seu trabalho.

A Fiandeira, cantando
Não bula com a roda
Que ela é de fiar...
O Caboclo
Não seja teimosa
Que há de apanhar.

-- En... en ! minha dona !... bradava êle, perseguindo a interlocutora, que se punha de pé : Stou todo arrispiado !!

E muito dito chistoso e muito verso de sentido equivoco acudiam em turbilhão ao Caboclo e à Fiandeira, que acabavam brigando e fazendo as pazes, aos requebros da chula, às ovações da platéia.

Em seguida à Roda de Fiar vinha A Criação do Mundo, drama de enrêdo complicado e riquíssimo em disparates. Os protagonistas denominavam-se : O Caboclo, o Padre Eterno, Adão, Eva, Caim, Abel, o Sacristão e Sinhá Rosa.

Por esta distribuição pode-se calcular o ideal do autor. Apanhando reminescências, apenas arquivamos na memória um ou outro lance, que nos ficou por causa dos versos.

As figuras bailavam desde o comêço, o diálogo corria pouco interrumpido, o Caboclo entusiasmava com os seus repentes.

Com o imprescíndivel facão, traquinas e sempre disposto, arreliava êles as suas donas, e, no paraiso, recostado a uma árvore, implorava por Sinhá Rosa, quando ela sumia-se nos bastidores :

Rosinha de saia curta,
Barra de salta-riacho,
Trepa aqui neste coqueiro
Bota êstes côcos abaixo !

Então, Eva queixava-se a Adão, revelando-lhe a tentação da serpente, ao que êste soltava :

Grande pinheiro tão arto
Que dá pau para cuié !
Quem quizé vê mexerico
Vá na boca de muié.

A história intricava-se ; Caim matava Abel ; havia desaguisado ; e o Padre Eterno, numa apóteose de nuvens de pasta de algodão, descia do céu, intervinha benèficamente no conflito, finalizando o drama por um catêretê, em que o Padre Eterno dansava com Sinhá Rosa, aos peneirados do Caboclo, que, dando umbigadas, sapateando, bradava :

-- Quebra, Sinhá Rosa !... Rebola, minha Malmequeres !...

E palmas repetidas, bulha incessante, bravos e risadas, partiam ardentes. Arriava-se o pano, sucedendo após minutos um jongo de automatos negros, vestidos de riscado e carapuça encarnada, que, ao ferver de um batuque rasgado e licencioso, cantavam o estribilho, que ainda é popular.

Dá de comê !
Dá de bebê !
Santa Casa é quem paga
A você !

-- À cena o Téles ! -- Bravo do Téles -- À cena ! -- partiam da platéia, ao que êle atendia, e, reverentemente comovido, murmurava, adiantando-se e inclinando a cabeça :

-- Obrigado, meu povo... obrigado...

*
* *

Desta vez não fiz pochincha,
Descobriu-se a ladroeira !...

Assim exclamava o Chico-Gostoso da grade do seu tablado de leilões, sendo surpreendido numa escamotagem de prendas.

E uma trovoada de risos e uma pateada geral antepunham-se à imperturbabilidade do capadócio leiloeiro.

-- Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três... Psiu ! Psiu !!

O povo

-- Bravo ! Bravissimo !

Chico-Gostoso

-- Toca a música !

-- Tenho dois mil réis pelo porquinho... quem dá mais ?

Um homem

-- Dou mais meia pataca...

Chico-Gostoso

-- Pois o coré é seu... Toca a música !!...

O povo

-- Bravo ! Bravo do Gostoso !

*
* *

No império, o imperador, com o seu manto verde e sua corôa dourada, dominava no meio de sua côrte...

Nas noites de fogo, a afluência aumentava, as famílias aguardavam, sentadas em esteiras, por essa radiante conclusão dos festejos, e magnificas ceias, trazidas de casa, as congregavam expansivas.

Depois da meia-noite queimava-se a primeira roda : formavam-se partidos para saber-se quem venceria, se a fortaleza ou as fragatas : as moças gostavam dos girassóis e da lua, os menino da mulher que mija fogo e do barbeiro, e a rapaziada tinha como o melhor as vaias e os “fora” ao fogueteiro, que andava em verdadeira roda-viva.

Ao arder a derradeira peça, quando lia-se no transparente em cifras cambiantes -- Glória ao Divino -- a turba saia das barracas, os sinos repicavam, o acampamento levantava-se, os aplausos redobravam, e a multidão pouco a pouco dispersava-se.

Não faltavam comentários divertidos, ao toque das serenatas, aos últimos episódios da função.

Eis o que era naquele tempo a festa popular do Divino, quando a nossa sociedade não tinha a pretensão de querer impôr-se pela decadência de sues costumes e pelo enervamento de seu senso religioso.

 

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