Artífices da diversão
A folia dos mascarados sustenta o colorido da tradicional festa do divino, em Pirenópolis, onde também acontecem as cavalhadas

Apoenan Rodrigues

Foto: Max G. Pinto

A multidão fantasiada num momento de apogeu: crítica bem-humorada e farra criativa, regada a muitos litros de cerveja, tomados de canudinhos e canudões

Teodorico Pereira é um velhinho encantador de 77 anos, aposentado de suas inúmeras atividades na roça, no garimpo, nas sapatarias e até como sacristão da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário da pequena Pirenópolis, no interior de Goiás, a 120 quilômetros da capital, Goiânia. Seu Ico, como é chamado desde a infância na cidade onde nasceu, com sua sabedoria e sensibilidade de caboclo, tem histórias saborosíssimas.

“Antigamente a gente gostava de contar caso de assombração”, diz. “Mas hoje em dia, o médico muda a boca, o olho, a orelha das pessoas e a gente fica de frente com a própria assombração. Perdeu a graça. Então, temos de viver o passado, mas o mais importante é o presente”, afirma ele. A associação feita por seu Ico remete diretamente à tradicional Festa do Divino. Há anos ele é o tocador de sino da missa que celebra o evento – mescla de festejos religiosos e profanos, realizados anualmente 50 dias após a suposta data da ressurreição de Cristo –, que, apesar dos tempos modernos, ainda mantém seu esplendor e beleza.

Na semana passada, a charmosa Pirenópolis outra vez se desvencilhou do peso oficialesco da festa para ganhar muito mais cor, humor e criatividade no seu lado informal, protagonizado pela população que, preenchendo apenas 2 dos 12 dias do calendário festeiro, literalmente enlouqueceu fazendo um carnaval verdadeiramente popular. No sábado 10 e no domingo 11, hordas de homens e algumas mulheres invadiram as ruas barrocas de pedra da cidade fantasiados e mascarados sob suas montarias cheias de guizos e sinos. Nestes dias, marido sai para um lado, mulher para outro e sobra diversão para todo mundo. É um acontecimento absolutamente democrático. Há desde gigantescos cavalos de raça, montados por gente com fantasias superproduzidas, até pangarés e jegues conduzidos por aqueles mais desprestigiados pela sorte, mas nem por isso menos inventivos na sua maneira de se divertir. Um deles era o pedreiro José Mauro Luiz de Souza, 40 anos, há 28 participando da cavalgada dos mascarados. “Espero o ano inteiro por este momento. Para mim é a melhor coisa do mundo”, dizia ele, todo de preto, com roupas catadas no fundo do guarda-roupa, e com máscara que imitava palhaço.
No outro oposto, o médico de Brasília Haroldo Dabadia – nome supostamente inverossímil, pois, como parte da diversão marota, a maioria dos mascarados mente, muda a voz e esconde até as mãos para não ser reconhecida – montava seu alazão todo produzido com folhagens. A máscara era de diabo, supercolorida. “O que vale é a sensação de liberdade, poder fazer o que quiser”, contou o ortopedista de 38 anos. Ao seu lado estava o sitiante Luiz Gustavo Siqueira, também de 38 e igualmente de diabo. “Saio desde os 11 anos e cada dia uso uma fantasia diferente.” Quem não pode comprar faz suas próprias máscaras. Os que podem, encomendam para seis artesãos locais, entre eles o casal Jaine e Aparecida de Siqueira, que há dez anos esculpe o artefato em papel machê. O vale-tudo transforma Pirenópolis num cenário de filme. Embalados por litros e mais litros de cerveja, tomados de canudinhos ou canudões passados pelos orifícios da boca ou do nariz das máscaras – o que dá irreverentes toques surrealistas –, os cavaleiros protagonizam cenas dantescas. Quase todos fazem brincadeiras com turistas ou habitantes locais. Mas vários deles se empolgam e encarnam os personagens, cavalgando pelas ladeiras vestidos como mensageiros da morte em roupas negras e máscaras de caveira.

Foto: Max G. Pinto

Pires gasta três horas para enfeitar seu cavalo. Aparecida e Jaine fazem máscaras há dez anos

Vistos no seu teatro cumprem um verdadeiro ritual messiânico em contraste com as poderosas Pathfinders e até Mercedes-Benz último tipo, pilotadas por agroboys americanizados, todos bonitões nas suas indumentárias countries, circulando velozes pela cidade de 20 mil habitantes. Muitos carregam duas ou três caixas de som no porta-malas. A multidão dança, coreografa e bebe, bebe, bebe. Os cavalos, às vezes, só se incomodam com o peso dos enfeites. No quesito, tanto faz um pneu velho de bicicleta quanto coloridos tecidos hippies, cheios de brilho e motivos zen. Depois da farra diurna, à noite a curtição de roceiros, agroboys, patricinhas e mauricinhos regionais é dançar nos “ranchões”, espécies de raves rurais com forrós e hits do momento.

Em contraste com as manifestações profanas, de domingo a terça-feira ocorrem as Cavalhadas. A da semana passada foi a 182ª. Encenada desde 1826, elas simbolizam a luta entre cristãos, comandados pelo imperador Carlos Magno, coroado em 800 d.C., e os mouros que invadiram a Península Ibérica. Hoje, elas são apresentadas no estádio local. São 12 cavaleiros de cada lado. Para um cidadão pirenopolino, a importância de ser um cavaleiro assemelha-se à de um político. Muitos disputam o cargo com afinco. Gilvan Espírito Santo Lobo, um comerciante de 32 anos, no domingo 11 exultava na sua estréia como defensor dos cristãos. Há anos ele esperava a oportunidade até a vaga ser conquistada por votação – com uma mãozinha de um tio. “Sou católico, é uma grande emoção”, contou, suando em bicas sob o pesado chapelão emplumado.

O fazendeiro Antônio Gaia Pires, 52 anos, há 23 participa lutando ao lado dos mouros. Passa o ano inteiro cuidando de seu belo manga-larga, ensaia durante duas semanas e nos dias da encenação gasta três horas só para enfeitar o cavalo, que tem até o casco pintado de dourado. Cavaleiros não vão à missa nem ao cortejo imperial. O “imperador” é o responsável pela festa. É eleito por sorteio. Sonha com seus momentos de glória e angustia-se por 90 dias dedicando-se exclusivamente ao evento. O “imperador” 2000, Vicente Batista dos Santos, um administrador rural de 36 anos, não se continha em orgulho e suor carregando o cetro e a coroa de prata de mais de um quilo. “Só participando para saber a sensação.” Ao final, é ele quem distribui as verônicas, doces feitos à base de açúcar e limão representando o Espírito Santo que repousa sobre as virgens personalizadas nas criancinhas. O bom humor de seu Ico lembra que nem as verônicas são mais as mesmas. Para ele, um colecionador contumaz de fotos, moedas e caramujos, as verônicas modernas não passam de orelhas de coelho.

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