Festa do Divino nos Açores e ...     ... no mundo

Descrição

                O Imperador, logo que recebe a notícia de lhe ter “saído o Espírito Santo” na extracção dos “pelouros” (sorteio) realizado à porta do “triato” no Domingo da festa, começa a preparar-se para cumprir com o possível rigor a missão a que voluntariamente se obriga por espaço de uma semana, desde que recebe em casa a coroa e bandeira, trazidas procissionalmente à noite (mudança), entre tochas acesas, do Império ou da casa de outro Irmão, até que, terminadas as festividades, a faz conduzir por sua vez, e de igual modo, a casa do novo Imperador.

 

As sopas (função) no Canadá

                Assegurados os alqueires de trigo para o pão e os “gueixos” (bezerros) para os quinhões de esmola e para a “função”; os panelões, as terrinas, os pratos, os copos e os talheres para o jantar, que o Império empresta; “falados” os homens da viola e as cantadeiras para animar o “balho”; adquiridos os foguetes para anunciar o “terço” e para acompanhar a Folia e a Coroação, - o ditoso Imperador começa a fazer os convites pelos parentes, vizinhos e amigos para irem “rezar o terço” durante a semana e tomarem parte nas diferentes festividades.

                Na freguesia dos Altares, os convites às mulheres eram feitos pela dona da casa para onde ia o Espírito Santo, e os convites aos homens pelo próprio Imperador que para o efeito saía com uma vara enfeitada na mão, envergando o fato de “ver a Deus”.

                Na freguesia da Ribeirinha havia um costume curioso, que consistia no seguinte: o Imperador que recebia a coroa num Domingo para coroar no Domingo imediato, tinha de cumprir o que se chamava “ir buscar o repique”, isto é, passar pela igreja e fazer com que repicassem os sinos antes de entrar em casa, o que o obrigava às vezes a percorrer bastante caminho, quando adrede vivia num extremo da freguesia, distante portanto da igreja paroquial.

                Armado o trono no “meio-da-casa” (1) com profusão de lumes e flores, junca- -se o chão com “feno” (caruma de pinheiro) e enfeita-se todo o interior com ramos de faia. À porta, espeta-se um mastro com bandeira encarnada e branca. O Imperador e os seus convidados aguardam fora da porta a chegada de coroa, empunhando círios e velas. Como já se disse, os convidados para esta cerimónia costumavam usar a tiracolo uma toalha branca, bordada e guarnecida com rendas.

 

Altar no Brasil

                Depois de ser dado o cetro a beijar a todos os presentes, é posta a coroa no último degrau do trono, assente na salva e com o cetro atravessado, ficando a bandeira encostada lateralmente.

                Perto da hora aprasada, começam a chegar os ranchos para o Terço, trazendo as mulheres os chales pela cabeça e os homens o chale-manta pelos ombros. Estes calçam galochas e empunham varapau (bordão).

                As casas, no geral pequenas, ficam a transbordar de gente, mas só as mulheres se sentam em bancos e cadeiras colocadas ao longo das paredes e no velho estrado junto à janela. Os homens ficam de pé ou acocorados aos vãos das portas. Um pequeno espaço livre, ao centro da já de si acanhada quadra, é destinado à “Charamba” ou “Balho”, e denomina-se “sala”.

                O Terço é oferecido pelo padre ou por qualquer pessoa entendida e ajudado por todos os assistentes, mulheres à frente, homens atrás. Compõe-se de Cinco Mistérios, terminando cada qual por um Pai Nosso e dez Ave-Marias, cantadas em coro, ora pelas mulheres ora pelos homens, uma Salvé-Rainha e uma Ladaínha, findando com os evocativos: “Espírito Santo Deus, misericórda!  Imaculada Mãe de Deus, rogai por nós! Quem oferece o Terço pede no final algumas Ave-Marias por intenção dos donos da casa e por alma dos seus defuntos, pelas alminhas do Purgatório, pelos que andam nas águas do mar, etc.

               Terminadas as rezas preparam a “sala “ para se dançar, entrando para o centro os homens da viola, enquanto se destinam os pares para a “ Charamba” que é o primeiro número do baile. Este divide-se em duas partes, entrando na primeira as seguintes “modas “, sempre pela ordem indicada: Charamba, Virar-do-Baile ou S. Miguel, a Tirana, o S. Macaio e a Chamarrita. Na 2ª  parte: o Pèsinho, a Praia, a Saudade, os Bravos, o Meu-Bem, a Lira, os Olhos-pretos e a Sapateia. Embora fossem introduzidas novas modas, como os Braços ou Bela-Aurora, o Casaco ou Cá-Sei, substituindo algumas das atrás indicadas, contudo a 2ª parte abria e fechava sempre com as mesmas modas, e só depois de terminado o Balho propriamente dito, é que se iniciavam as “Chamarritas “, dançadas por pares isolados que se revezavam e que a assistência ia premiando com aplausos mais ou menos frenéticos consoante o mérito dos dançarinos.

                Nos bailes de mais nomeada havia dois tocadores de viola: o primeiro que fazia o “ponteado “ e o segundo - o mestre - a quem competia “mandar “ o baile e, por esse motivo, fazia só o acompanhamento. Nos bailes de menos fama porém, só havia um tocador que acumulava as duas funções.

                Do modo como eram dançadas as diferentes modas do baile, dá-nos uma minuciosa descrição o capitão Machado Droumond, num valioso trabalho publicado no Vol. XIII do Boletim do I. H. I. T.

                O Terço e o Baile prolongam-se por toda a semana, durando este, muitas vezes, até de madrugada.

                Na Quarta-feira começa a cozedura do pão, para o que as raparigas se juntam em casa do Imperador para as amassaduras, enquanto as Velhas tratam de preparar o forno. Como parte das massas são preparadas com leite, da parte dos convidados afluem as vasilhas com o necessário “para o pão do Senhor Espírito Santo “. Antigamente o leite era transportado em cabaças e cada cabaça levava também, amarrada, uma merendeira “ (ou brindeira) de massa sovada.

                As raparigas casadoiras faziam pequenas merendeiras de massa, denominadas “ferrumecos “, para oferecerem aos namorados no baile, o que era motivo de grandes risotas e de verdadeiras lutas para a disputa da massa a tais práticas destinada.

                Na Quinta-feira de manhã vão aos pastos, ou currais, buscar os bezerros destinados à matança, os quais são enfeitados com boninas e flores de papel, fitas e arcos coloridos, e depois passeados nas ruas com acompanhamento de violas e vários instrumentos (rabeca, clarinete e barítono) que executam a música chamada o Pèsinho, constituindo a “Folia dos Bezerros “ ou “Bezerrada “, a que já nos referimos, desfile que é precedido, como sempre, em todas as festas populares, pelo enxame do rapazio que rodeia o homem dos foguetes, correndo em disputa das “canas-do-ar “.

               No dia seguinte as rezes são abatidas e a carne retalhada para a sopa, o cozido e a alcatra do jantar, e para os “quinhões de esmola  a distribuir pelos pobres da freguesia.

                Se o Imperador não tem adega própria, o vinho é comprado fora e vão buscá- -lo em carros de bois vistosamente engalanados com ramos de faia e bandeiras (Carros do Espírito Santo). Os bois são junjidos a capricho, com lindos colares de campaínhas e artísticas “cangas “ (jugos), levando os tangedores aguilhadas enconteiradas, que depois dos bodos são guardadas cuidadosamente até ao ano seguinte e transmitidas de pais a filhos como jóia de alto preço.

 

Bodo nos Estados Unidos

                No Sábado faz-se a distribuição de esmolas, compostas de carne, pão e vinho. Antigamente, em especial nos Impérios da cidade, as esmolas eram colocadas sobre mesas estreitas, armadas com táboas e cavaletes ao longo da rua do Império, e cobertas com toalhas brancas. Em pratos de louça de barro, tendo no fundo, pintada a azul, a coroa do Espírito Santo, circundada por uma silva ou simplesmente com o nome do Império, era colocada a carne, acompanhada de um naco de fígado e sangue cozido, tudo enfeitado com um raminho de hortelã. Junto do prato, o pão, de formato oblongo, tinha uma rosa espetada na cabeça.

                As esmolas são sempre benzidas pelo padre, quer sejam distribuídas na rua quer na Despensa ou à porta do Império.

                Além das esmolas, são no Domingo de manhã distribuídas pelos irmãos, no caso dos Impérios, ou pelos convidados no caso da festa ser particular, tigelas de louça de barro com a sopa do Espírito Santo, confeccionada em casa do Imperador. Nas grandes Funções das freguesias do Campo, as tigelas de sopa são distribuídas por todas as casas, para o que as portas ficam apenas encostadas, permitindo assim que as raparigas, que andam logo de manhã a proceder à distribuição, entrem e despejem numa terrina, propositadamente posta sobre o estrado ou numa cadeira junto à porta da rua, o presente de que são portadoras.

                Os Foliões costumam também percorrer a freguesia na manhã deste domingo, cantando em frente de algumas casas e recebendo em troca algumas ofertas. Vão seguidamente almoçar a casa do Imperador.

                Chegada a hora de se organizar a “Coroação” (cortejo que conduzirá procissionalmente a coroa à igreja) os convidados aguardam fora da porta que os Foliões vão distribuindo as “insígnias”, o que fazem cantando.

                A coroa é oferecida pelo Imperador ao parente mais próximo ou a pessoa de respeitabilidade convidada para esse fim. A bandeira é entregue ao “ alferes”. As varas brancas destinam-se aos parentes e são geralmente em número limitado (seis), tendo na parte superior um côto de vela e um laço de fita com um raminho de flores a cerca de um palmo abaixo da extremidade superior. As varas vermelhas, com uma pomba pintada a branco, são destinadas aos restantes convidados e distribuem-se em grande número.

                Organizam-se então duas alas, primeiro com os que empunham as  varas vermelhas, seguindo-se os das varas brancas que rodeiam a coroa, precedida da bandeira.

                À frente da Coroação, os Foliões vão tocando e cantando enquanto o acompanhamento entoa o Terço.

                À porta da igreja o pároco aguarda o cortejo espargindo-o com água benta, e dirige-se depois para o altar-mor, onde é colocada a coroa, rezando-se depois a missa, finda a qual o Imperador ajoelhado numa almofada de damasco vermelho, recebe o cetro e a coroa das mãos do padre que entoa o “Veni Creator Espiritus! “.

                Reorganizado o cortejo, o Imperador, com a coroa na cabeça, é conduzido procissionalmente a casa, onde os Foliões procedem à cerimónia da Descoroação que é feita metodicamente, entregando a coroa e as restantes insígnias ao som do tambor e dos descantes da Folia.

                Segue-se o jantar que é composto por sopa de carne, cozido, alcatra e arroz doce. Da confecção de todas estas iguarias se deu conta já no Cap. IV.

                Terminado o jantar, prepara-se a Mudança, cortejo organizado conforme ficou descrito já.

                Nos domingos de Pentecostes e da Trindade (Domingo de Bodo) os Impérios de todas as freguesias da ilha dão o seu Bodo que consiste na distribuição de pão, cozido especialmente para esse fim, e rosquilhas de massa sovada, além do vinho.

 

Carros de Toldo na Terceira

                No terreiro, frente ao Império, aglomeram-se os “carros de toldo “ que são carros de bois a que aplicam uma sebe especial (sebe dos Bodos) feita em vimes descascados, formando um toldo que é coberto por uma colcha de tear, branca, ou de chita vermelha enramada, orladas de folhos e presas às sebes com laços de fita. Sobre o leito do carro colocam um colchão, coberto por uma manta, no qual as mulheres se sentam “encruzadas “, assistindo à distribuição do Bodo. Os carros são dispostos em alas paralelas, deixando entre as alas um caminho mais ou menos largo, para o qual fica voltada a traseira dos carros. É por esses caminhos que passam os forasteiros e devotos de visita ao Império e nele circulam também os rapazes cantando à viola, oferecendo confeitos e dirigindo galanteios às raparigas que por sua vez os brindam com sorrisos e fatias de massa sovada de que em todos os carros há boa provisão.

                À porta do Império procede-se à arrematação das “promessas”, cujo produto reverte a favor da festa do Bodo. As promessas feitas em dinheiro atingem, por vezes, somas bastante elevadas; as feitas em espécie são geralmente em animais: galinhas, pombas, coelhos, bezerros. Às vezes prometem metade de um porco ou de um boí, e o pagamento faz-se oferecendo o valor dessa metade, avaliada por pessoa séria e competente da freguesia, que atende apenas ao valor real e nunca ao estimativo. Também oferecem braços, pernas, meninos, pombas ou outros animais feitos em “alfenim “, correspondendo esta espécie de promessas a doenças ou enfermidades que atacaram o corpo ou a parte reproduzida na oferta (2).

                Uma oferta curiosa é a das chamadas “rosquilhas de serviço “, que são duas, de massa sovada, mandadas cozer pelo mordomo ou procurador, de meio alqueire de trigo cada uma, enfeitadas de flores e que ficam no Império à disposição dos devotos que as pedem para pagar a promessa, indo ajoelhar a certa distância do Império com a rosquilha à cabeça e, rezando, arrastam-se até junto do altar e aí a entregam com algum dinheiro. Finda a festa, são partidas em “toros “ (rodelas) e cada um deles oferecido a um dos vogais da mesa da irmandade. O Irmão que as oferece é denominado “Irmão esmoler “.

                Após as arrematações faz-se a extracção dos pelouros, isto é, realiza-se o sorteio entre os Irmãos para saber a quem toca festejar o Espírito Santo no ano seguinte. Duas urnas, duas caixas ou simplesmente dois copos de vidro, contêm pedacinhos de papel dobrados cuidadosamente, estando nuns inscritos os Irmãos e nos outros os sete domingos em que há-de ser festejado o Espírito Santo. O mais feliz é o Irmão a quem couber o 1º Domingo porque levará nesse mesmo dia a coroa para casa e a conservará todo o ano, até ao domingo de Pascoela. Por tal motivo, quando qualquer dos Irmãos é contemplado, mas especialmente o do 1º Domingo, o povo manifesta o seu regozijo aplaudindo, enquanto sobem ao ar muitos foguetes e o Folião rufa o tambor com estrepitoso entusiasmo. Quando sai bilhete branco há ditos de troça e até assuada quando o sorteado está presente, a ver se encavaca.

                Irmão a quem sai o 1º Domingo, ou alguém da família que se encontre presente, vai depois da festa buscar a coroa ao Império, convidando parentes e amigos a acompanhá-lo, organizando-se então o cortejo chamado Mudança, que conduz a coroa até à residência daquele Irmão.

                É no Domingo de Pentecostes (1º Bodo) e no da Trindade (2º Bodo) que os Impérios “do monte “ (das freguesias rurais) realizam as festas e cerimónias acabadas de descrever e por isso toda a gente reserva esses dias para visitar todas as freguesias, dando uma volta completa à ilha. É o que se chama: “correr os Bodos “.

                Nos Impérios, às festividades citadas juntam-se outras, como os arraiais e iluminações nas ruas, e, mais modernamente, os “bodos de leite” comuns a muitas festividades religiosas, como as de Santo António, e as “touradas à corda “ que são remate certo de todas as festas, quer religiosas quer profanas, merecendo que delas se trate com desenvolvimento que nesta memória não cabe, mas que pensamos levar a cabo em monografia especial, se outros até lá não o fizeram, com muito mais probabilidade de êxito, o que oxalá aconteça para bem de todos os que pela Etnografia se interessam.

 

 

João Ilhéu, “Festividades religiosas e profanas”, in Ilha Terceira - Notas Etnográficas,

Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1980, pp. 235-242.

 

 

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