As  Festas do Espírito Santo no Faial - 2007

Extraído do BLOG : http://geocrusoe.blogspot.com/2007/

26 de Maio de 2007

FESTAS DO ESPÍRITO SANTO I- Simbologia da Coroa

No próximo fim-de-semana decorrerão as festas em louvor do Espírito Santo, as celebrações mais características dos Açores, que se estendem a todas as ilhas e freguesias da Região.
Embora sejam festas de cariz religioso, desenvolveram-se ao abrigo de um braço de ferro entre a hierarquia da Igreja Católica e a fé popular, foi esta facção, devido ao seu forte enraizamento nas pessoas, quem venceu.
Por isso, nestas festas coexistem rituais tradicionais de cariz folclórico, como os foliões, e uma mistura de símbolos de raiz cristã, com outros de poder secular.

Abaixo estão as três coroas das irmandades da localidade da Ribeirinha (Faial), cheias desta mistura como passo a evidenciar.

A coroa central é a mais antiga e data do final século XIX, todavia comum a todas elas o seguinte:

Coroa com hastes, as mais antigas têm quatro, simbolo de poder imperial, uma forma de reconhecer ao Espírito Santo o poder máximo, o título de imperador.

Na junção das hastes há sempre uma Esfera encimada por uma Pomba, representando o domínio do Espírito Santo sobre a Terra e sobre o próprio poder imperial.

Junto a cada coroa há um bastão chamado Ceptro, o mesmo nome do bastão utilizado pelos monarcas, outro reconhecimento de autoridade real.

O ceptro tem na sua extremidade superior uma pomba, novamente um símbolo de realeza e hierarquia reconhecido ao Espírito Santo.

Algumas coroas sobre as hastes ostentam também uma Cruz, um sinal da ligação entre a fé no Espírito Santo e a fé em Cristo.

Uma particularidade no nordeste do Faial, onde se situa a Ribeirinha, é a existência de uma imagem de Santo António esculpida no Ceptro, uma mistura da fé em Deus e reconhecimento da intercessão do santo popular deste país. Patrono da localidade dos Espalhafatos da freguesia da Ribeirinha.

Nos próximos dias procurarei entre o apoio às festas e o tempo livre procurarei dar mais informações sobre a forma de como se expressa esta devoção pelos lados da Ribeirinha e da simbologia associada.

 

FESTAS DO ESPÍRITO SANTO II - Estandarte

Tal como a coroa tem muito de símbolos do poder real e não há reino que não tenha a sua bandeira para hastear nos seus espaços ou um estandarte para os desfiles, também não à colectividade em honra do Divino Espírito Santo, que se chamam irmandades como a maioria das instituições religiosas em torno de uma devoção específica, que não tenha o seu Estandarte.

Os 3 estandartes em uso na Ribeirinha, montados para o cortejo religioso.

Os Estandartes por norma são vermelhos, para representar o fogo, um símbolo do Espírito de Deus, já bem evidente na sarça ardente no tempo de Moisés e retomado na descida do Espírito Santo sobre os apóstolos encerrados com medo do judeus, como relata o livro dos Actos dos Apóstolos no Novo Testamento, onde Ele desce sobre a forma de línguas de fogo, 50 dias após a ressurreição (Pentecostes), data em que a Igreja sai à rua e inicia a evangelização dos povos. Também podem ser branco, símbolo da pureza do Espírito Divino.

Todos os estandartes têm uma pomba a representar o Espírito Santo, de onde frequentemente divergem vários raios de luz. Depois a decoração varia, sendo frequente a flor-de-lis (outro símbolo associado a realeza, por norma francesa) e línguas de fogo, cuja explicação consta acima.

 

Um estandarte na Ribeirinha com a maioria dos símbolos descritos e num momento de preparação do cortejo em 2006.

 

FESTAS DO ESPÍRITO SANTO III - As sopas

A manutenção da devoção ao Espírito Santo, deve-se à necessidade das famílias pedirem protecção ao Divino contra as fúrias da terra: Ventos ciclónicos, chuvas diluvianas, maresias e, sobretudo, sismos e vulcões.
Para garantirem protecção, as famílias mais abastadas implementaram um sistema de distribuição de alimentos aos menos abastados pelo Pentecostes e em louvor do Espírito Santo, pelo evolução social, esta prática generalizou-se por quase todos e hoje, praticamente, a maioria dos açorianos, de uma maneira ou outra, estão envolvidos nestes festejos.

A devoção ao Espírito Santo celebra-se sobretudo através da doação de pão, carne e vinho aos pobres, mas tem o seu auge na organização das refeições, oferecida à maioria das populações locais, com as tradicionais Sopas do Espírito Santo.

Abaixo os preparativos das sopas do Espírito Santo e o despojos da festa, que se quer sempre lembrada pela abundância da oferta de quem a organiza, o Mordomo.

Os tachos ao lume a cozinhar durante a noite as tradicionais sopas que serão servidas na manhã seguinte.

 

Os chefes de cozinha a temperarem e a controlarem a situação ao longo da madrugada.

São os membros da cozinha os últimos a comerem a sua refeição, após centenas de pessoas terem sido servidas

A abundância que faz sobrar por norma comida para muito mais.

 

Na Ribeirinha a refeição é tradicionalmente composta por um caldo de carne de uma ou mais vacas, disponibilizada(s) pelo mordomo, que é colocado sobre pão de trigo (tipo açorda) acompanhada da carne cozida, repoulho, couves, fígado de vaca aromatizados com hortelã e endro e a sobremesa é arroz doce. Paralelamente existe ainda a acompanhar a refeição um pão doce caseiro, rico em ovos e aromatizado com erva-doce, limão, aniz e noz-moscada (vestígios da rota marítima das especiarias) cujo nome é Massa Sovada, pela forma como é preparada.
A bebida tradicional é o vinho do pico (morangueiro desde o século XIX), embora hoje também sejam servidos refrigerantes e vinho de mesa comum.

 

FESTAS DO ESPÍRITO SANTO IV - o Império

O imóvel onde se situa a sede de cada irmandade do Espírito Santo chama-se, no Faial, Império.

Existem diversos estilos, embora sempre com uma coroa do Espírito Santo no alçado principal, sendo três as tipologias arquitectónicas mais comuns:

Tipologia 1 - Corpo único, rectangular, semelhante a uma capela e onde no seu existe pelo menos uma sala de refeições com um altar e divisão correspondente a uma cozinha, por vezes o altar fica separado numa terceira divisão junto à entrada principal - Exemplo: Império Central da Ribeirinha ou Império Amarelo.


Tipologia 2 - Corpo único de pequenas dimensões, raramente mais de 9 m2, no seu interior existe apenas uma divisão com o altar - Exemplo, império da Lombega, freguesia de Castelo Branco, zona sul do Faial.

Tipologia 2 - Império na Estrada Regional, Freguesia de Castelo Branco.

 

Há uma terceira tipologia de impérios, divididos em dois edifícios, normalmente separados por um pátio (arramada), sendo um dos imóveis em forma de capela, onde o alçado principal está virado para a arramada e não para a estrada, este possui uma divisão com o altar e nalguns casos a sala de refeições, no outro imóvel situa-se obrigatoriamente a copa, podendo nesta coexistir uma sala de refeições. Os impérios com esta tipologia, Império Vermelho e o Império dos Espalhafatos foram significativamente destruídos na Ribeirinha, sobrando a copa do Vermelho.

Brevemente uma foto de um império desta tipologia noutra localidade do Faial.

 

FESTAS DO ESPÍRITO SANTO V - Coroação e Cortejo

Hoje, Domingo de Pentecostes, fecho o ciclo das Festas do Espírito Santo, na Ribeirinha do Faial em especial e nos Açores em geral, com a apresentação de dois dos momentos religiosos associados a estes festejos, sobretudo de iniciativa popular.


A
Coroação, realizada no final da missa da Festa, onde o Mordomo, ou um mais dos seus familiares são coroados pelo Sacerdote, com a Coroa do Espírito Santo, uma forma de invocar a Protecção e a Benção divina sobre quem recebe a coroa e seus parentes.

O outro acto religioso típico são os Cortejos ou Procissões que se realizam entre a casa do mordomo que organiza a festa e a igreja para a celebração da missa da festa e depois entre a igreja e o império.

Embora com variantes no tempo e no lugar, o mordomo é escolhido através de um sistema rotativo ou, nalguns casos, por sorteio entre os irmãos da irmandade de um dado império, mais raramente também existem promessas resultantes de uma pessoa em particular que prometeu organizar um festejo em louvor do Espírito Santo num momento de dificuldade, podendo ser irmão ou não.

 

FESTAS DO ESPÍRITO SANTO VI - Contrastes além fronteiras

O meu colega da Escola Secundária da Horta, o picoense Zé Duarte, emigrado para as terras do Tio Sam, onde anima as comunidades lusoamericanas com as canções que compõe e interpreta, arte que lhe está nas veias e que já nos animava na escola, enviou o endereço do seu site onde mostra numerosas fotos das Festas do Espírito Santo em San Diego, realizadas no passado Domingo da Santíssima Trindade.

Face ao elevadíssimo interesse que os posts destas festas despertaram, sobretudo além mar, não resisto em colocar uma ligação à página do Zé Duarte, mas primeiro chamo à atenção para o contraste da sobriedade das festas cá na terra e a riqueza e diversidade destas festas realizadas pelos emigrantes em San Diego.

Ricas ou pobres, cá ou noutras partes do mundo, o certo é: onde há Açorianos, há a devoção ao Divino Espírito Santo, o símbolo que mais identifica e une a alma deste povo ilhéu.

 

VALORES EM EXTINÇÃO

Nesta ilha, épocas houve em que a falta de dinheiro não impedia a construção, preservação e recuperação de imóveis dos espaços públicos e o nosso património estava bem conservado. Estas tarefas eram então desempenhadas em regime de voluntariado e por iniciativa das próprias pessoas que residiam nas nossas comunidades... Depois as iniciativas colectivas foram sendo abafadas pelo comodismo e este alimentado por dinheiro público das entidades. Estas últimas, muitas vezes para assegurar a manutenção dos cargos dos seus titulares de uma forma relativamente fácil, passaram a assumir as tarefas que o espírito de colectividade e de cooperação antes existente desenvolvia. Criando regimes de pagamento desnecessários para os serviços ao bem-comum e à colectividade.

O regime de voluntariado para as causas entrou em crise e está em extinção, mas importa mostrar exemplos em que ainda perduram, para ver se volta a reproduzir-se e a instalar-se na nossas colectividades de forma a que o marasmo em que muitos hoje vegetam termine e os frutos do dinamismo social regressem.

A fase final de reabilitação do Império Central da Ribeirinha foi disso um exemplo.

Os irmãos, graciosamente, deitam mãos à obra de reabilitação do Império.


O exterior estava igualmente num estado lastimoso.


Mas o voluntariado arregaçou as mangas e pegou nos pincéis.


A fachada ficou como nova.

e a festa do Espírito Santo regressou ao seu Império.