A ENTREVISTA QUE NÃO FOI PUBLICADA

– José, vá ao Hospital e faça uma entrevista com a Plascidina sobre o acidente que a vitimou durante o levantamento do mastro da Festa do Divino no sábado passado. Passe na casa do Lauro, pegue emprestada a Kodak, peça à Helena para te ensinar o funcionamento e fotografe a região atingida pelo foguete. Nós vamos mandar fazer o clichê e publicar na próxima edição do “O Buraco”.

Esta foi a ordem do “Seu” Nenê ao José Geraldo Edmundo, “secretário” do jornalzinho alternativo que, às vezes, circulava em Paraopeba aos domingos. Menino inteligente e obediente o Zé Leitão, como era tratado pelos colegas da oficina da “Gazeta”, era também muito tímido e ingênuo e um dos responsáveis pela circulação de “O Buraco” usados pela irreverência do inesquecível jornalista Manuel Antônio da Silva para extravasar o seu bom humor na análise dos fatos cômicos ou bizarros do cotidiano. “Seu” Nenê era, na realidade, o mentor, proprietário, escritor e editor do jornal e, como recompensa, exibia largo sorriso ao ver publicados fatos e estórias (mais estórias que fatos) que sua observação crítica captava. Era, principalmente, um grande “gozador”.

Tradicionalmente, no final da novena do Divino Espírito Santo, era armada no adro da Igreja Matriz, majestosa fogueira e o levantamento do mastro, com a figura da graciosa pombinha estampada numa bandeira adornada com fitas e flores artificiais, era saudado com grande espetáculo pirotécnico. No dia da festa, à tarde, houve uma rápida e forte chuva que molhou a lenha da fogueira e umedeceu uma parte dos foguetes de vara que estava guardada no porão do coreto, ali nas proximidades. Depois de muito trabalho e alimentada por algumas latas de querosene, expelindo sufocante fumaça, a fogueira foi acesa. Mas havia o problema dos rojões que ainda estavam um pouco úmidos. O Zé Guizo, competente fogueteiro, responsável pelo espetáculo, resolveu a situação: sobre uma tora de lenha, junto à fogueira, alinhou os foguetes lado a lado, a fim de que o calor fizesse evaporar o resquício da umidade que poderia prejudicar o seu trabalho.

Multidão à volta, “anjinhos” enfileirados cantando o “Com minha mãe’starei”, trazendo a Bandeira do Divino do interior da Igreja, banda de música preparada, congado aguardando a ordem do “capitão” para a “marcha picada”, Zé Guizo com o tição-detonador na mão direita e um foguete firme na esquerda aguardava somente o sinal do Padre Herculano para acionar o jato do primeiro rojão e iniciar a festa. Aí aconteceu o inesperado: uma fagulha marota pulou da fogueira e caiu justamente nos foguetes que estavam secando, ativando todos eles ao mesmo tempo e impulsionando-os na horizontal em todas as direções a pouco mais de um metro do solo.

A debandada foi geral. Gente para todos os lados. “Anjinhos” com as asas caídas pisoteavam a bandeira e gritavam pelas mães. O boné de “capitão” do Zé Conrado, com todos os galões e espelhinhos, foi parar dentro da boca da tuba do Portápio que corria célere logo atrás. Mas foi só o susto. Por milagre, ninguém se machucou. Somente a Plascidina, 80 anos de idade e 120 quilos de peso, que não suportava a agitação da festa e que houvera saído antes do acidente, foi atingida na retaguarda, palmo e meio abaixo da linha da cintura, por um dos foguetes. Internada no Hospital Nossa Senhora do Carmo, foi para lá que se dirigiu o Zé Leitão para a entrevista.

ZL – Bom dia, Dª Plascidina. O “Seu” Nenê me mandou aqui para visitar a senhora e fazer uma entrevista para “O Buraco”.

P – Quê qui é intrevista?... Num tô gostano nada disso!... In coisa do Nenê eu num confio não...

ZL – Entrevista é sua narrativa de como foi o caso do foguete que atingiu a senhora...

P – Nem te conto meu fio... Saí da Igreja antes do foguetório e fui subino a rua, ino pra casa. Pra num perdê tempo, tava rezano o meu terço e, antes do segundo mistério, vi aquele fogaréu atrás de mim. Oiei de rabo de oio e achei qui era a carruage de fogo do Profeta Elias qui tava me levano pra glória celeste... Mas a catinga de porva e inxofre e o começo da quintura fez eu pensá que era o demo me cutucando com sua vara de treis dente e me carregano pras curnichas das catinguera... Trupiquei nas tira da minha precata e caí sentada no poço dágua qui a chuva fez. Aí eu escutei aquele chiado de água no fogo e num vi mais nada. Quando acordei tava dentro daquele cocho de carregá capado c’o Zé Tiofo e o Aquino da Dª Leopordina me trazeno aqui pro hospitá...

ZL – O atendimento foi bom e a senhora está sendo bem tratada?

P – A Maria Zita, infermeira aqui do hospitá me trata cum todo carinho. Quando cheguei, ela mim deu um banho de água cum sal, trocou minha saia e as treis anágua qui eu vistia e qui tava tudo sujo de barro, disinfetou os sapecado com arco e água xigenada e untô eles cum Pumada Minanco misturada cum banha de galinha preta. Dispois, imbrunhô os machucado cum fôia de bananeira qui é pra eles num grudá um cum otro... Só arrecramo do jeito que tô deitada... De barriga pra baixo e c’as perna aberta amarrada pros pé no catre. É pra num piorá, né?...

ZL – Sente muita dor, Dª Plascidina?

P – Inté qui não. A dô apertô no premero dia. Mas a Zita me deu um chá de carqueja com Guaraina e agora num dói muito mais não. Só uns comichão de vez in quando e um ardume e latejo que cum a ajuda de Nossa Senhora eu vou guentano... É a vontade de Deus meu fio...

ZL – Tem recebido muitas visitas?

P – Tenho. As presidente do Apostolado, Dª Arvina e Dª Anesa vem aqui todo dia. O padre me deu a comunhão no domingo. Inté o iscumungado do Zé Guizo já veio me visitá e pidi perdão pur causa do fuguete...

ZL – Agora, para encerrar e dar mais autenticidade à entrevista, peço que a senhora me mostre o local do machucado para eu fotografar e publicar no jornal...

P – Quê qui é fotografá?...

ZL – Tirar o retrato da parte atingida...

P – Minino trivido. Vê lá se vou mostrá minhas intimidade procê e deixá ocê mostrá elas no jorná... Se eu num tivesse presa aqui na cama, cum as perna marrada, eu ia pegá aquela vassora ali no canto e te insiná a respeitá os mais véio... Quando eu saí daqui vou falá com o Gumercino e a Aristolina qui num soube criá ocê cumo divia pra te dá uma surra de vara de marmelo. Cê num pode sê nem coroinha mais, sô pestinha disbocado. Padre Irculano vai sabê dos seus modo cum eu. Fala pro Nenê qui ele divia era rezá mais e arrespeitá os cabelo branco qui ele tem. Some daqui moleque sinão eu chamo a Zita pra te pô na rua. Sô coisa ruim...

E o Zé Leitão, coitado, mais vermelho que a bandeira da China, saiu correndo e foi relatar o acontecido ao “Seu” Nenê que já o aguardava morrendo de rir lá nas oficinas da “Gazeta”.

Era assim o querido Manuel Antônio da Silva. Jovial e irreverente até no fim de seu tempo. Fim só material porque o espiritual continuará a guiar a mim e a outros que com ele conviveram e aprenderam a amar a vida tão bem como ele fazia.

A sua bênção e a nossa homenagem, inesquecível mestre!

– E como eu soube dessa estória? Simples, gafanhoto. Também fui um dos “minino da tipografia”, no dizer da Venância, secretária para assuntos domésticos de Dª Tuta, esposa do “Seu” Nenê. E, como tal, constava lá no expediente de “O Buraco”: Diretor – João da Silva Motta... A entrevista não foi publicada mas, obviamente, tomei conhecimento de tudo...