 |
| O altar do Divino Espírito
Santo. Foto: Luís Cardoso |
|
O Divino em Brasília - DF
- Brasil
José Mauro Ribeiro
Na década de 70, era comum a quase toda
uma geração de jovens brasilienses, principalmente,
estudantes da UnB, sair nos fins de semana para explorar e
descobrir lugares ainda desconhecidos da população do
incipiente Distrito Federal. Fomos as primeiras “bandeiras
candangas”, em busca das belezas naturais e do rico
patrimônio cultural existente aqui, desde antes da criação
de Brasília.
“Quebradas chocantes” como as cachoeiras
de Mumunhas, do Tororó, Sarandi e Poço Azul, dos saltos do
Corumbá, de Itiquira, do Arrojado, dos rios Maranhão, do
Sal, da Palma, dos Macacos, foram os locais preferidos para
acampamentos históricos, nos feriados e finais de semanas
desta primeira “fornada” de brasilienses, aqui nascidos ou
vindos acompanhando os pais pioneiros da construção de
Brasília. Foi na tentativa de chegar a um local chamado
“Quebrada dos Deuses” que eu e um grupo de amigos, com um
mapa do DF nas mãos, tomamos a via 001, passamos pela
chapada da Contagem – hoje condomínio do Lago Oeste – e já
na DF-170, descendo a serra do Urbano, chegamos ao vale onde
se encontra a bela região da Palma, que hoje configura a APA
de Cafuringa.
Tenho ainda na memória a imagem e o
arrebatamento que tivemos quando nos deparamos com a
paisagem que se descortinou diante de nossos olhos: um vale
rodeado de montanhas salpicadas de pontos de água, que
desciam serra abaixo, refletindo-se ao sol como contas
douradas, enfeitando o colo da mãe natureza. A partir desta
data, eu nunca mais deixei esta região, onde, tempos depois,
comprei um sitiozinho, me integrando de corpo e alma a esta
terra e sua gente.
|
|
| Chegada do Alferes, portando
a bandeira encarnada com o símbolo do Espírito
Santo, do Caixeiro e do Regente. Foto: Luís
Cardoso |
Meu propósito neste texto não é o de
fazer uma ode às belezas naturais da região, que bem
mereciam, mas comentar a fraterna relação de convivência
desta comunidade. Nela, há um alto grau de parentesco,
devido aos casamentos entre si, intensa relação entre
compadres e afilhados, além de muita amizade. Mesmo sabendo
que esse fenômeno é conseqüência natural de qualquer
comunidade que tenha ficado muito tempo isolada, o que
impressiona é que esta comunidade conseguiu se sustentar
através do tempo, resistindo bravamente, inclusive, ao
perverso e desordenado processo de ocupação do solo que se
instalou já há algum tempo no DF.
Passei a compreender melhor este fenômeno
ao identificar os códigos de relações existentes entre os
moradores da Palma, a partir de minha gradativa participação
nos rituais religiosos das festas do Divino Espírito Santo,
realizadas, todos os anos, nesta região. Primeiramente, lá
pelos anos de 1988, fui convidado por um vizinho para
assistir a um pouso em sua casa. Algum tempo depois, fui
convidado para receber um pouso em meu sítio. A partir de
então, os convites para estes festejos foram se amiudando,
levando-me a uma participação mais efetiva junto aos
organizadores, foliões e moradores da região.
Estes trinta anos, desde minha primeira
visita à região, me permitiram ser absorvido e integrado a
esta comunidade, constituída por pequenos fazendeiros,
sitiantes, trabalhadores rurais e moradores de cidades
próximas como Brazlândia e Sobradinho, para onde muitos
deles tiveram que migrar, em razão de pôr os filhos na
escola. Entretanto, todos eles estão ligados às histórias
vividas na região, aliado ao profundo sentimento de
religiosidade que se afirma, anualmente, nas romarias à
localidade do Muquém, para os festejos de Nossa Senhora
D’Abadia e nos casamentos, batizados, novenas e,
principalmente, nas folias do Divino Espírito Santo.
Acontecendo entre maio e setembro, as folias do Divino têm
seu inicio no quadragésimo dia, a contar da ressurreição de
Cristo, e termina após as novenas, nove dias de penitência e
preparação dos festejos que se darão em algumas das
paróquias existentes nas cidades próximas.
|
|
|
| O ritual da
chegança. Foto: Luís Cardoso |
A chegada da
folia no momento do foguetório. Foto: Luís
Cardoso |
O Alferes é a pessoa que lidera a festa
de folia, realizada em agradecimento a uma graça alcançada.
Esta promessa ao Divino é cumprida juntando um grupo de
foliões, fiéis que se dispõem a passar até duas semanas
fazendo um “giro”, em um roteiro de pousos em vários sítios
da região, para celebrarem, orarem e dançarem catira, num
ritual de penitência e purificação.
O anfitrião de cada pouso se compromete a
receber o “retrato”, a “bandeira” e os foliões que, em data
marcada, pousarão em sua casa. Como “Pouseiro”, ele tem a
responsabilidade de receber e alimentar o grupo, geralmente,
entre 100 a 200 foliões, os cata-pousos, pessoas que
acompanham a folia, principalmente, nos fins de semana, além
dos mascates e donos de barracas de bebidas. Tal público,
conforme o prestígio do Alferes, pode chegar a até 1.000
pessoas.
Na preparação do evento, uma comissão de
cerimonial percorre previamente o roteiro, orientando desde
a posição do cruzeiro, que ficará no terreiro, a colocação
do altar na sala onde serão entoadas e cantadas as ladainhas
e orações de celebração à divindade, até a localização do
barracão de sapé, onde será servida a comida e depois
dançada a catira.
|
|
|
| As saudações da
chegada com toadas e ladainhas, pontuadas pelas
violas caipiras. Foto: Luís Cardoso |
A entrada da
capela, preparada para receber a bandeira e o
retrato do Divino Espírito Santo. Foto: Luís
Cardoso |
Existe uma rígida hierarquia que,
contudo, funciona na base do consenso da tradição. Como
líder, o Alferes porta a bandeira encarnada com o símbolo do
Espírito Santo e o “retrato”, uma gravura do menino Jesus. O
Regente é responsável pela disciplina do grupo, que prevê
várias sanções. Depois vem o “guia”, encarregado por puxar
as saudações de chegada, o rosário, as ladainhas no altar e
as despedidas de agradecimentos. O Procurador guarda o
dinheiro e as esmolas recebidas, o Mussungueiro cuida dos
víveres, o Cargueiro vigia a tropa que fica no pasto durante
a noite e, por fim, há a figura do Caixeiro que marca a
batida rítmica característica do divino, o toque da
alvorada, além do sinal de advertência, a pedido do Regente,
quando algum folião está se excedendo.
A chegada da folia ao pouso é
caracterizada por um intenso foguetório, tanto do lado de
quem recebe como dos cavaleiros foliões, paramentados com
seus chapéus de boiadeiro, camisa geralmente quadriculada,
lenço vermelho no pescoço e botas de cano longo. Sobre seus
cavalos, em movimentos coreográficos dinâmicos, formam um
coração colorido no terreiro da casa.
Após este ritual de chegada e de
boas-vindas, o Alferes entrega a “bandeira” ao Pouseiro,
dono da casa, que a beija e a leva, juntamente com o retrato
do Divino, para o altar florido e bem decorado com santos e
bibelôs de animais, sob o som das toadas e ladainhas.
Terminada esta primeira parte de chegança, os foliões fazem
uma pausa para o banho e o farto jantar, onde não pode
faltar carne de boi com mandioca, arroz com “gueroba”, carne
de porco frita e muitos doces e bolos com café, na
sobremesa. Após o jantar, há um ritual de agradecimento,
seguido de sermão conduzido pelo regente, que faz uma
reflexão sobre os eventos do dia, além de recados
disciplinares.
|
|
| A passagem da bandeira do
Alferes para o Anfitrião, o Pouseiro. Foto: Luís
Cardoso |
Depois desta jornada, o profano substitui
o sagrado, a viola muda de tom, o ar reverencioso passa a
ser festivo, ao ritmo compassado das palmas e do sapateado
da catira que, a partir de então, reinará por toda a noite.
Alguns foliões acendem fogo no terreiro para se defender do
frio navalhante dos meses de maio e junho. Lá pelas tantas,
tendo como travesseiro o arreio e a manta da sela como
cobertor, adormecem guardados pelas estrelas.
Não tarda e o caixeiro anunciará a
alvorada, sinalizando o fim das festividades pagãs e
chamando todos para o café da manhã. O dia dos foliões
começa cedo. Terão que arrear os animais e se preparar para
as despedidas. Ao som dos violeiros, no altar dentro de
casa, o pouseiro, juntamente com toda sua família, beija
respeitosamente a bandeira e a entrega ao Alferes, que a
conduz ao terreiro onde estão perfilados os foliões para os
agradecimentos ao dono do lugar. Este é o momento mais
emocionante do pouso. Os foliões apeiam de seus cavalos e,
em movimentos reverenciais, agradecem um a um ao dono da
casa, fazendo elogios, pedindo desculpas por algum
transtorno e se colocando ao dispor para qualquer
eventualidade que o pouseiro, por acaso, possa ter.
|
|
|
| Ritual de
agradecimento, seguido de sermão conduzido pelo
regente. Luís Cardoso |
A dança da
catira, no momento em que o festejo profano
substitui o sagrado. Foto: Luís Cardoso |
As lágrimas rolam de lado a lado, sob
forte teor emotivo, desde o peão ao dono da terra, todos se
unem numa impressionante catarse coletiva. É nesse momento
que se compreende como e porque pessoas de origem social tão
diversas, interagindo no contexto especial de uma festa
religiosa, estabelecem códigos de convivência que formam
verdadeiras couraças defensivas, fortalecendo sua identidade
cultural.
Em fila e em silêncio respeitoso, os
foliões retomam a estrada. O sol já está alto e o dia
promete ser novamente pleno de encontros, alegrias e emoções
para eles. Para quem permanece, como eu, que já experimentei
várias vezes a emoção deste momento incrível, fica o
sentimento de pertencimento, que envolve todo este “giro”.
Vêm à minha cabeça as palavras da amiga Bete Fontes,
estudiosa de danças sagradas: “Quando um organismo
social pode ter a consciência da solidariedade, da harmonia,
do ritmo, dos ciclos, cria identidade, cria desdobramentos
infinitos, incomensuráveis e inexplicáveis...”
Neste ano da graça de 2003, recebi um
convite lá pras bandas do ribeirão, para girar numa folia
como simples folião. É uma honra! Já estou preparando meu
espírito e minha licença no trabalho para passar uma semana
cavalgando, celebrando, cantando, dançando, bebendo pinga e
dormindo ao relento, sob as estrelas, nestes “caminhos de
Santiago” brasilienses. Há algo mais purificador?
|
|
| O descanso da cavalgada.
Foto: Pedro Braga Netto. |
TRIBUTO AOS AMIGOS
Oscar Cardoso & Elvécio Cardoso
Tributo aos amigos numa batida de caixa na Alvorada de
Folia
Me lembro dos companheiros que foram para terra fria
Recordo com saudade dos amigos estimados
Que se encontram em outro mundo
Que por Deus foram chamados
No dia da Alvorada
Todos se reuniam
Com amor e humildade
Para girar na folia
Era um momento sagrado
Com muita dedicação
Da Alvorada à Entrega
Girava toda união
Primeiro morreu Idelfonso
Depois morreu Corsino
Em seguida morreu Lúcio
Os três Guias do Divino
Também se foi João Caixeiro
Edcino e Geraldo
Zé Piaba e Erandi
Miguel e Antônio Alves
Nosso Deus é tão perfeito
Eu bem sei que ele não erra
Eles estão em outro mundo
E partiram dessa terra
Eu escrevi esses versos
Com sentimento e saudade
Recordando os companheiros
Que foram para eternidade
|
|
|
|
| Os cavaleiros e
os músicos no ritual de chegança da festa do
Divino. Foto: Pedro Braga Netto |
Tocador de
rabeca. Foto: Pedro Braga Netto |
Toadas e
ladainhas na cerimônia de chegança da festa do
Divino. Foto: Pedro Braga Netto |
POEMAS DE NIKOLAUS VON BEHR
nem tudo
que é torto
é errado
vide as pernas
do garrincha
e as árvores
do cerrado.
nikolaus von behr
o cerrado é milagre, como toda a vida
(é também pedaço do planeta que desaparece)
abraço meu irmão pequizeiro
ando de mãos dadas com as sucupiras
os jatobás sorriem
as perobas não dizem nada, apenas sentem
minhas amigas abelhas são filhas das flores
agora prepare seu coração:
correntão vai passar e levar tudo
ninho de passarinho rasteiro também
depois do correntão brotou o que tinha que brotar
mas já era tarde – faca fina do arado
cortou a raiz pela raiz
e ai não brotou mais nada
aliás brotou coisa melhor: soja, verdinha, verdinha
que beleza diziam
olhe bem os cerrados da próxima vez
rasteje por entre capins e cupins
e sinta o cheiro do anoitecer
antes de terminar pergunto: quem vai pagar
a conta de tamanha destruição?
– “tudo bem, daqui a cem anos estaremos todos mortos”
disse alguém
certo. estaremos todos mortos mas nossos netos não
o cerrado é milagre minha gente
nikolaus von behr
|
|
|
| A beleza
rústica do bate-caixa. Foto: Pedro Braga Netto |
A majestade da
copaíba centenária. Foto: Pedro Braga Netto |
|