O DIVINO E O PROFANO: A INSERÇÃO DE NOVOS DISCURSOS NA FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO EM BARRA VELHA SC
Juliano Bernardes
Historiador pós graduando em História Social e Ensino de História
julianobernardes@yahoo.com.br


A Bandeira do Divino
Os devotos do Divino, vão abrir sua morada, pra bandeira do menino, ser bem-vinda, ser louvada. Deus vos salve esse devoto, pela esmola em vosso nome, dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome. A bandeira acredita, que a semente seja tanta, que esta mesa farta, que esta casa seja santa. Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita, que o homem seja livre, que a justiça sobreviva. Assim como os três reis magos, que seguiram a estrela guia, a bandeira
segue em frente, atrás de melhores dias. No estandarte vai escrito, que ele voltará de novo, e o rei será bendito, ele nascerá do povo. (Ivan Lins)


Abram-se as portas: o Divino está chegando...


Os fogos e o tambor anunciam, é tempo da festa do Divino. Muitas portas se abrem, outras se fecham, olhares curiosos ou emocionados. Este é o cenário que antecede a Festa do Divino Espírito Santo em Barra Velha. Os foliões, juntamente com os Imperadores, familiares ou amigos, cumprem o ritual que se repete há muitos anos em Barra Velha: a visita das bandeiras às famílias. A Festa do Divino ocorre geralmente cinqüenta dias após a Páscoa. Muitas gerações tiveram a oportunidade de vivenciá-la. Os mais velhos guardam na memória as antigas festas e acompanham com grande emoção as festas atuais.
De acordo com Gustavo Cortês1, a Festa do Divino é uma comemoração européia. Como podemos observar a seguir em uma das explicações acerca da origem da festa: Foi instituída pela rainha Isabel, casada com o rei Dom Dinis, o lavrador, na cidade de Alenquer, onde foi construída uma igreja em homenagem ao Divino Espírito Santo, no início do século XIV. Conta a lenda que a rainha gostava de distribuir esmolas para os pobres, especialmente comida. O rei, sovina, passou a proibir a esposa dessa prática. Certa vez, quando levava pão aos famintos na rua, ela foi surpreendida de repente pelo rei, que lhe perguntou o que trazia. Temendo a reação do marido, ela respondeu que trazia rosas. Ao verificar, espantado, o rei viu lindas flores. Desse milagre parece ter nascido a tradição de se distribuir comida para todos os participantes nas comemorações do Divino. A devoção se espalhou rapidamente em Portugal e se tornou festa coletiva de
grande interesse popular.


1 CORTÊS, Gustavo Pereira. Dança Brasil!: festas e danças populares. Belo Horizonte: Editora Leitura, 2000. p.24.


No Brasil, a Festa do Divino foi instituída pelos imigrantes europeus, espalhando-se por todo o país, com destaque para o litoral, através dos imigrantes açorianos. Diversas bibliografias abordam as festividades ao Divino Espírito Santo demonstrando as peculariedades da festa na localidade abordada2. Acerca da Festa do Divino em Barra Velha, praticamente não existem obras que retratam a origem da festa na cidade3. A memória oficial da cidade demonstra que as
primeiras festas do Divino Espírito Santo foram organizadas pela família de Joaquim Alves da Silva, considerado o fundador de Barra Velha, como podemos observar na fala do pesquisador Acácio Gazino Borba Coelho4: a celebração dos festejos do Divino Espírito Santo foi trazida ao Brasil pelos açorianos
que vieram efetuar a pesca da baleia, para extração do óleo que seria usado na iluminação pública da cidade do Rio de Janeiro. Pelos relatos dos antigos habitantes de Barra Velha que chegaram até nossos dias, consta que as primeiras festas do Divino Espírito Santo nesta cidade, foram organizadas pela família de Joaquim Alves da Silva (Fundador de Barra Velha), isto, mais ou menos 150 anos atrás. Conta-nos a história que D. Pedro II e a Imperatriz Dona Tereza Cristina quando em visita à província de Santa Catarina em 1845, foram convidados por Joaquim Alves da Silva a participarem dos festejos do Divino Espírito Santo nesta localidade, na antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Na impossibilidade de comparecer, D. Pedro II teria enviado um casal de nobres de sua comitiva, para representá-los, nos citados festejos, isto em 1845. Desta deferência de D. Pedro II resultou que o padroeiro da localidade passou a ser São Pedro
de Alcântara em honra ao Imperador. Desta data em diante comemora-se todos os anos a festa do Divino Espírito Santo em Barra Velha, sempre mantendo-se a tradição e a mesma simbologia de sua origem em 1318. Terminada a festa, as coroas e bandeiras voltam à guarda da família Borba, o que ocorre há mais de 70 anos5.
Embora a memória oficial de Barra Velha, demonstre a origem da Festa do Divino através da família de Joaquim Alves da Silva, não existe nenhuma documentação que comprove esta informação, transmitida pela oralidade. Com o objetivo de valorizar os verdadeiros guardiões da memória , conheceremos as antigas festividades do Divino Espírito Santo em Barra Velha, valorizando a memória dos velhos. Como nos lembra Ecléa Bosi:


2 ALVES, Joi Cletison (Org). I Congresso Internacional das Festas do Divino Espírito Santo. Florianópolis: UFSC, 2000.
CASCAES, Franklin Joaquim. Vida e Arte e a Colonização Açoriana. Florianópolis: UFSC, 1981.
SOARES, Doralécio. Folclore Catarinense. Florianópolis: UFSC, 2002.
3 BOER, Peter. Barra Velha através dos tempos. Universal, 1993. p.34. Esta obra faz uma pequena citação sobre a Festa do Divino Espírito Santo de Barra Velha.
4 O Sr. Acácio Borba (in memoriam) foi professor de História em Barra Velha. Por diversas vezes publicou pesquisas em jornais, acerca da história da cidade.
 

5 O histórico da festa do Divino, elaborado em março de 1983, pelo Sr. Acácio Borba, encontra-se na paróquia de Barra Velha. a conversa evocativa de um velho é sempre uma experiência profunda: repassada de nostalgia, revolta, resignação pelo desfiguramento das paisagens caras, pela desaparição de entes amados, é semelhante a uma obra de arte. Para quem sabe ouvi-la, é desalieanadora, pois contrasta a riqueza e a potencialidade do homem criador de cultura
com a mísera figura do consumidor atual6.
Conhecer alguns aspectos importantes da festa do Divino Espírito Santo em Barra Velha na perspectiva de homens e mulheres que vivenciaram ou lhes transmitiram a história7, é extremamente relevante. Eles estavam lá, participaram das missas e procissões, foram Imperadores, dançaram, beberam, conheceram a queimada8, a concertada9 e os licores, num período que a cerveja ainda era desconhecida pela pequena população de Barra Velha. Um tempo em que a comida e a bebida eram gratuitas na Festa do Divino, que aos poucos foi se transformando. A memória destes velhos é fundamental para percebermos as transformações
ocorridas na Festa do Divino no decorrer dos tempos, pois como demonstra Bosi: nelas é possível verificar uma história social bem desenvolvida: elas já atravessaram um determinado tipo de sociedade, com características bem marcadas e conhecidas; elas já viveram quadros de referência familiar e cultural igualmente reconhecíveis: enfim, sua memória atual pode ser desenhada sobre um pano de fundo mais definido do que a memória de uma pessoa mais jovem, ou mesmo adulta, que, de algum modo, ainda está absorvida nas lutas e contradições de um presente que a solicita muito mais intensamente do que a uma pessoa de idade10.
Buscando suprir a necessidade de dar a palavra a vozes que foram silenciadas11 , nos remetemos através da memória a um outro tempo. Os velhos recordam a profunda emoção de receber as Bandeiras do Divino12 em casa. Muitas vezes, o chão se cobria de flores para a passagem das bandeiras.


6 BOSI, Ecléa, op.cit. p.82-83.


7 A Sra. Donília Bernardes Borba (84 anos), Sr. Lourenço Bernardes (85anos) sua esposa, Sra. Laura Coelho Bernardes (71 anos) e a Sra. Geysa Moura do Nascimento (66 anos) foram fundamentais para conhecermos as antigas Festas do Divino Espírito Santo em Barra Velha.


8 Bebida quente que possui como ingredientes principais o açúcar, a cachaça e o gengibre.
9 Bebida que pode ser servida quente ou fria. Tem como ingredientes principais: açúcar, cravo, canela, essência de baunilha, cachaça e água.
10 BOSI, Ecléa, op.cit. p.60.
11 CHAUÍ, Marilena. Apresentação: os trabalhos da memória. In: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p.19.
12 Barra Velha possui quatro bandeiras do Divino Espírito Santo. Duas são utilizadas para visitar as residências nos meses que antecedem a festa. As outras duas são utilizadas nos dias da festa. A vermelha representa o Espírito Santo e a azul representa a Santíssima Trindade.
Após as festividades religiosas, a Festa do Divino passava a ser vivida de uma outra forma, com danças, comidas, e um intenso consumo de bebidas alcoólicas, numa estreita relação entre o sagrado13 e o profano14. Na festa do Divino Espírito Santo, esta profusão entre o sagrado e o profano é bem visível. Durante as procissões e celebrações, os fiéis rezam, cantam, pagam promessas, se emocionam com o tempo sagrado15 . Sobretudo, com o encerramento das
celebrações religiosas, vive-se o lado profano da festa. Como escreveu Carlos Rodrigues Brandão: Ora, em sua variação de formas e alternativas o catolicismo parece ser, dentre todas as religiões mais visíveis do Brasil, aquela que combina o maior número de formas diferentes de celebrações, podendo fazê-las, inclusive, sucederem-se umas às outras, do que resulta a própria festa católica. Assim, uma Festa do Divino Espírito Santo, a folia precatória de antes dos festejos, a novena, as procissões, a grande missa do domingo e os folguedos, como os ternos de moçambiques e as cavalhadas. Apesar dos esforços da Igreja para separar uma parte propriamente religiosa das outras, folclóricas ou das francamente profanas, para o devoto popular o sentido da festa não é outra coisa senão a
sucessão cerimonial de todas estas situações, dentro e fora do âmbito restrito dos ritos da Igreja16.
Nas antigas festas do Divino, após as celebrações religiosas e a saída do cortejo rumo à Casa do Império17, as pessoas se dirigiam para um local especialmente preparado para a realização dos bailes e onde eram servidas comidas e bebidas. Posteriormente, os festejos foram transferidos para o pátio da Igreja Matriz, que após as celebrações religiosas, fechava suas portas e a festa continuava nos arredores. A igreja é considerada para o homem religioso como um espaço sagrado, assim como os símbolos envoltos nas celebrações religiosas. Como demonstra Mircea Elíade: para um crente, essa igreja faz parte de um espaço diferente da rua onde ele se encontra. A porta que se abre para o interior da igreja significa, de fato, uma solução de continuidade. O limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre os dois modos de ser, profano e religioso. O limiar é ao mesmo tempo o limite, a baliza, a fronteira que distinguem e opõem dois mundos e o lugar paradoxal onde esses dois mundos se comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o mundo sagrado18.
13 Algo que é consagrado. Realidade que não pertence ao nosso mundo.
14 Oposto ao sagrado: relativo às coisas mundanas.
15 ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1992.
16 BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A cultura na rua. Campinas, SP: Papirus, 1989, p.37.
17 Local de onde partem as procissões nos dias da festa.
18 ELIADE, Mircea. op.cit.p.28-29.


A Igreja Católica traz consigo, diversos símbolos que despertam a experiência individual e transmudam-na em ato espiritual, em compreensão metafísica do mundo19 . Para um homem não religioso, as bandeiras do Divino Espírito Santo, não possuem qualquer relação com o sagrado, enquanto que para um homem religioso, as bandeiras representam o sagrado. Outro exemplo é a utilização do pão e do vinho nas missas, que representam para a Igreja Católica o corpo e o sangue de Jesus Cristo, denominado Eucaristia: fonte e ápice de toda a vida cristã20 .


Assim escrito no Catecismo da Igreja Católica: na comunhão, precedida pela oração do Senhor e pela fração do pão, os fiéis recebem o pão do céu e o cálice da salvação , o Corpo e o Sangue de Cristo, que se entregou para a vida no mundo . Porque este pão e este vinho foram, segundo a antiga expressão, eucaristizados , chamamos este alimento de Eucaristia, e a ninguém é permitido participar na Eucaristia senão aquele que, admitindo como verdadeiros os nossos ensinamentos e tendo sido purificado pelo Batismo para a remissão dos pecados e para o novo nascimento, levar uma vida como Cristo ensinou21.


Em 1998, uma polêmica instaurou-se na paróquia e nas capelas de Barra Velha. Como é de costume da Igreja Católica, após alguns anos o padre é substituído por outro. O recém chegado padre Fernando Gonçalves foi o precursor da inserção de um discurso que gerou grande impacto nas festas da Igreja: a proibição da comercialização de bebidas alcoólicas. A decisão de proibir a comercialização de bebidas alcoólicas nas festas católicas em Barra Velha dividiu os católicos.
Enquanto muitos aderiram às novas determinações, outros resistiram fortemente. As opiniões acerca da proibição foram as mais diversas. Alguns logo concordaram e outros se revoltaram em saber que a Igreja deixou de comercializar bebidas alcoólicas nas festas.


Posteriormente, a decisão de proibir o consumo de bebidas alcoólicas nas festas religiosas, estendeu-se por toda a diocese de Joinville, dirigida por dom Orlando Brandes22 e outras dioceses também estão aderindo à proibição23. Nos últimos anos, a imprensa vem noticiando a decisão da diocese, como podemos ver a seguir:
Radicalismo que deu certo na Igreja: A Igreja Católica de Joinville, também preocupada com o consumo de bebidas alcoólicas, decidiu radicalizar e adotou a lei seca. A


19 Id. Ibid, p.172.
20 CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição Típica Vaticana. São Paulo, SP: Edições Loyola, 2000 p.365.
21 Id. Ibid, p.374.
22 Atualmente Dom Orlando Brandes é arcebispo de Londrina, PR e a diocese de Joinville aguarda a posse de um novo bispo.


23 A diocese de Blumenau votou pela permanência das bebidas alcoólicas nas festas católicas. polêmica decisão tomada depois de várias reuniões e discussões com a comunidade, segundo o bispo Dom Orlando Brandes, começa a mostrar resultados. Não forçamos ninguém a nada. A própria comunidade aceitou e aprovou a decisão. Eles vão mais alegres para as festas , afirma Brandes. As igrejas não comercializam mais álcool nas festas religiosas de abrangência da Diocese de Joinville. Atualmente 96% das igrejas respeitam a decisão e de acordo com Dom Orlando, a medida fez aumentar a presença de fiéis nas festas. Além disso, as pessoas que antes apenas compravam o churrasco e levavam para casa, agora ficam na igreja para comer, explica. Para o bispo, a não comercialização de álcool também afastou aqueles que freqüentavam os eventos apenas para beber e criar confusão. A decisão de não vender mais bebidas foi implantada neste
ano. O clima agora é diferente. É mais espiritual e familiar , conclui o bispo. No caso das comunidades joinvilenses, é do pároco a responsabilidade de tirar as bebidas alcoólicas das festas da paróquia. Onde o padre fica neutro ou é contra, é impossível a mudança de hábito , diz Brandes. Em 2000, a Igreja Católica há havia discutido o problema na Campanha da Fraternidade. O tema foi Vida sim, drogas não 24 ·.


As matérias publicadas no jornal A Notícia25, refletem somente a opinião da Igreja sobre a proibição26. A diocese de Joinville utiliza os meios de comunicação, destacadamente o jornal A Notícia, para explicar as motivações da abolição da comercialização de bebidas alcoólicas nas festividades católicas. A Igreja utiliza o jornal como veículo de expressão de suas idéias.
Na visão da Igreja Católica, a proibição da comercialização de bebidas alcoólicas justifica-se em desenvolver um trabalho de conscientização das pessoas acerca das bebidas que contém álcool, através de seu caráter prejudicial. Para uma melhor compreensão e aceitação das novas determinações, algumas citações bíblicas foram utilizadas para explicar a proibição. Os padres, diáconos e as lideranças das comunidades, foram preparados para intervir e conscientizar sobre a inserção dos novos discursos. Alguns documentos foram elaborados e distribuídos nas igrejas ou publicados pela imprensa, para que as pessoas compreendessem a finalidade da diocese em abolir o álcool das festas. A inserção de novos discursos visa o disciplinamento27 dos católicos, que participam das festividades religiosas, sem a ingestão de bebidas alcoólicas. Como nos mostra Michel Foucault: 24 Radicalismo que deu certo na Igreja. A Notícia. Disponível em
http://an.uol.com.br/ancidade/2005/mai/30/3pol.htm. Acesso em: 06 jun 2005. 25 Uma funcionária do jornal A Notícia explicou que a Igreja não paga as publicações. Ela não soube explicar porque o jornal expressa somente a opinião da Igreja em relação à proibição. E-mails foram enviados para o editor
responsável das publicações, mas não foram respondidos.
 

26 Igreja reforça a evangelização. Bebidas devem ser excluídas das festas paroquiais. A Notícia. Disponível em http://an.uol.com.br/2003/mai/27/0cid.htm. Acesso em: 16 set 2005. Bebidas alcoólicas e festas de igreja. A Notícia. Disponível em http://an.uol.com.br/2005/jul/16/0opi.htm. Acesso em: 16 set 2005.
 

27 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 20.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987. p.119. a disciplina fabrica indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode fiar em seu superpoderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente28.
A Bíblia é um importante mecanismo para difundir a inserção dos novos discursos. Seu conteúdo, estabelecido como verdade, conduz os cristãos à moralidade almejada pela Igreja. A Igreja Católica utilizou a Bíblia para disciplinar os católicos após a proibição. A doutrina católica prega que a interpretação do livro sagrado pode ser transformada de acordo com o tempo vivido. Como podemos observar a seguir: naturalmente, é na Bíblia que a Igreja Católica baseia, em grande medida, sua vida e seu dogma. Porém, a Bíblia é vista à luz da Tradição, isto é, da doutrina e dos costumes que foram transmitidos pela Igreja desde a época dos apóstolos. Evidentemente, a Tradição não é a transferência mecânica do legado oral deixado pelos apóstolos, e sim o desenvolvimento constante do potencial que existe no evangelho. Com a ajuda do Espírito Santo, a Igreja será capaz de compreender e revelar a mensagem de Deus de maneira cada vez mais clara. Mas o que quer que se entenda por Tradição , há uma crença católica comum que diz que apenas a Igreja, e não o crente como indivíduo, pode definir o que é Tradição29.


Enquanto as antigas festas de Igreja não tinham por finalidade gerar lucro, as festas atuais tornaram-se altamente lucrativas. Com a proibição da comercialização de bebidas alcoólicas a queda dos lucros foi drástica. Novos discursos foram inseridos pela Igreja para suprir a necessidade de arrecadação. O pagamento do dízimo passou a ser incentivado nas paróquias e comunidades. Mais uma vez a Bíblia foi utilizada para explicar aos católicos a importância do pagamento do dízimo. Os padres, diáconos e lideranças passaram a organizar missas e celebrações especiais aos dizimistas, disciplinando os católicos e incentivando-os a pagarem o dízimo corretamente.
Outras religiões criticam a Igreja Católica pela comercialização de álcool em suas festas. Estas religiões se mantêm com o dinheiro arrecadado com o dízimo e defendem que os católicos deveriam fazer o mesmo. Uma das razões da proibição, segundo documento da diocese de Joinville é dar um bom exemplo perante as outras religiões.
28 Id. Ibid, p.143.
29 GAARDER, Jostein (Org). O livro das religiões. 3.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.p.184.
Santa Catarina proibiu a comercialização de bebidas alcoólicas nas festas escolares30. Esta vigilância em relação às bebidas alcoólicas é constante em diversos setores da sociedade. Em Barra Velha, nem todos os católicos ou freqüentadores aceitaram passivamente a proibição de bebidas alcoólicas nas festas religiosas. Surgiram inúmeras falas e práticas contrárias às determinações da Igreja. Embora a Igreja tenha elaborado estratégias disciplinares para a inserção dos novos discursos, os católicos e freqüentadores das festas, elaboraram táticas de resistência para que as bebidas alcoólicas continuassem a ser consumidas. As táticas são assim denominadas por Michel de Certeau: a ação calculada é determinada pela ausência de um próprio. Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece uma condição de autonomia. A tática não tem lugar senão o do outro. E por isso deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma
força estranha. Não tem meios para se manter em si mesma, à distância, numa posição recuada, de previsão e de convocação própria: a tática é movimento dentro do campo de visão do inimigo , como dizia von Bullow, e no espaço por ele controlado. Ela não tem portanto a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto, visível e objetivável. Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as ocasiões e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas31.
De Certeau nos mostra que as táticas são as formas de resistência contra o poder instituído. Aproveitando as falhas do poder para agir de forma contrária. No caso do que chamamos de inserção de novos discursos, as táticas se manifestam nas formas encontradas para contrariar as determinações da Igreja Católica. Em sumo, as táticas de resistências encontradas para que as bebidas alcoólicas sejam consumidas nas festas católicas, mesmo sendo proibidas. Na Festa do Divino em Barra Velha, existiram e ainda existem táticas de resistência. As bebidas alcoólicas ainda são consumidas na festa, através de outras formas32.


Vimos que a Igreja Católica formulou estratégias para a elaboração dos novos discursos. Para disciplinar os católicos, utilizou a imprensa e passou a discursar contra o álcool nas celebrações. Os padres e diáconos passaram a conscientizar os fiéis sobre os aspectos prejudiciais 30 A Lei Estadual, nº 12948 de 11 de maio de 2004, proíbe a venda e consumo de bebidas alcoólicas, de qualquer graduação, no ambiente físico das escolas públicas e privadas, nos estabelecimentos de ensino dos cursos fundamental, médio, superior, técnico e profissionalizante do Estado de Santa Catarina.


31 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 5.ed. Petrópolis,RJ:Vozes, 1994. p.100.


32 Algumas pessoas levam bebidas alcoólicas de casa, compram no comércio próximo da Igreja, substituem refrigerante por cerveja na lata de refrigerante ou compram o churrasco e levam para casa, consumindo bebidas alcoólicas. do álcool. O dízimo passou a ser incentivado. Enfim, conhecemos algumas estratégias
disciplinares. Sobre este método de ação, assim escreveu Michel de Certeau: chamo de estratégia o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvo ou ameaças (os clientes ou os concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos da pesquisa etc.). Como na administração de empresas, toda racionalização estratégica procura em primeiro lugar distinguir de um ambiente um próprio , isto é, o lugar do poder e do querer próprios. Gesto cartesiano, quem sabe: circunscrever um próprio num mundo enfeitiçado pelos poderes invisíveis do outro. Gesto da modernidade científica, política ou militar33.


Primeiramente o padre Fernando Gonçalves e posteriormente a diocese de Joinville buscaram o disciplinamento dos católicos. Criaram um conceito de católico ideal, e para isso desenvolveram estratégias. As estratégias são as formas utilizadas para criar, determinar, construir ou se apoderar de algo. Nas relações de poder, as manobras do forte (poder) contra o fraco . As estratégias e as táticas estão num constante combate. Embora o poder disciplinar das instituições vigorem, as táticas estarão sempre procurando brechas para contrariar as normas instituídas e as estratégias determinarão novas formas de lutar contra as táticas. Atualmente a diocese de Joinville aguarda a posse de um novo bispo. A Festa do Divino Espírito Santo ainda ocorre sem a comercialização de bebidas alcoólicas, porém, em algumas comunidades do município as bebidas alcoólicas estão novamente sendo comercializadas.
As festas marcam a passagem de um tempo considerado normal , para um tempo repleto de celebrações e símbolos. Na Festa do Divino Espírito Santo em Barra Velha, podemos observar como os devotos do Divino esperam ansiosamente a visita das bandeiras. A visita emociona muitos devotos que beijam a pombinha que representa o Espírito Santo. Nas fitas que compõem as bandeiras do Divino, percebemos a fé e a esperança, graças recebidas ou promessas cumpridas.
Enquanto os foliões cantam, muitos devotos choram, acariciam as bandeiras, rezam. A oferta, muitas vezes já preparada é entregue aos foliões. O convite para participar da festa é realizado, e as bandeiras seguem. Nos dias da Festa do Divino, ocorre uma maior movimentação de pessoas na cidade. Muitos ex-moradores retornam. O comércio lucra com a festa. No sábado à noite as 33 CERTEAU, Michel de.op.cit.p.99. bandeiras são levadas em procissão para a Igreja. E lá é realizada a missa festiva. Após a missa, o cortejo segue para a Casa do Império, com uma parada na lagoa da cidade para uma belíssima
queima de fogos. As procissões e missas seguem no domingo e segunda-feira. O auge das celebrações ocorre no domingo, com a coroação dos Imperadores e o anúncio ou sorteio dos novos Imperadores da festa.
A Festa do Divino Espírito Santo de Barra Velha, era considerada a mais antiga e importante festa do município. Em 1997, foi criada a Festa Nacional do Pirão. Assim como as festas de outubro no Estado de Santa Catarina, a Festa do Pirão visa a incrementação do turismo durante o feriado de sete de setembro. A proibição da comercialização de bebidas alcoólicas nas festas da Igreja tornou a Festa do Divino uma festa secundária no calendário festivo da cidade. A
Festa Nacional do Pirão, atualmente é anunciada como a festa mais importante do município de Barra Velha.
A inserção de novos discursos na Festa do Divino Espírito Santo em Barra Velha, diocese de Joinville e em outras dioceses que também aderiram à proibição, foi e deverá ser tema de inúmeras discussões, sobretudo pela polêmica instaurada quando este assunto é abordado. Por mais que a Igreja queira separar o sagrado do profano a profusão entre os dois é intensa e qualquer discurso de transformação gera grande polêmica.