A Festa do Divino no Estado de Espírito Santo - Brasil

 

Marataízes

A bandeira do Divino com sua pombinha em meio a fitas coloridas, perambula e vai longe em itinerários conhecidos, recolhendo prendas para os preparativos da festa.

Viana

Festa do Divino Espírito Santo: é uma manifestação cultural portuguesa, trazida para o Estado pelos imigrantes provenientes das Ilhas de Açores. Ela acontece em data móvel, entre maio e junho.

 

A festa do Divino Espírito Santo

Segundo dados que conseguimos recolher, festeja-se ainda, em terras capixabas, o Divino Espírito Santo: no segundo domingo de março, na praia de Marataízes (município de Itapemirim), por ocasião da tradicional festa das Canoas. Temos desta festa interessante, além de farto documentário fotográfico – inclusive fotos coloridas –, pequeno filme e várias gravações das cantorias da Folia do Divino. Também na cidade de Viana (no dia consagrado ao Divino Espírito Santo), além de fotografias da procissão, com o Imperador e a Imperatriz conduzindo a Coroa e o Cetro de prata, algumas gravações das cantigas, recolhidas de foliões, na residência do Sr. João do Nascimento. Da mesma forma, segundo informações que colhemos no local (não vimos a festa), sabemos que se festeja o Divino também ali em Iconha.

Possivelmente, em vários outros recantos do interior do Estado, há de haver a Festa do Divino, com a sua Folia e a Bandeira, em cujo tope, asas abertas, se encarapita a Pombinha Santa.

Notícias a respeito da festa o boletim Folclore já divulgou em algumas das suas edições: “O Divino e o Mastro”, do Dr. Christiano Fraga (n.º 7-8, de julho a outubro de 1950); “A Festa do Divino na Barra de São Mateus”, de Manoel Antônio de Oliveira (Manduca Evêncio), no mesmo número; “Marataízes, os maratimbas e a Festa das Canoas”, de Renato Pacheco (n.º 16-17, de janeiro a abril de 1952); “A Festa das Canoas em Marataízes”, de Guilherme Santos Neves, no mesmo número; “Festa das Canoas, Folia do Divino e o Rosário de Maria”, de Guilherme Santos Neves (n.º 22-23, de janeiro a abril de 1953).

Os dois primeiros registros acima citados focalizam a festa como outrora se realizava. Conta o Dr. Christiano Fraga:

Na proximidade do domingo do Espírito Santo, pelas povoações do interior, em dado momento a atenção é atraída para um som de tambor que se aproxima vagarosamente. Lá surge aquele grupo de quatro ou cinco sujeitos, às vezes de opa, um deles batendo tambor, outro empunhando um estandarte, onde a pomba do Espírito Santo, branca e rodeada de raios dourados, quase desaparece sob numerosas fitas multicores. [...] A gente simples do povoado dá-lhes alguma moeda, café e até almoço ou jantar. O estandarte é levado às pessoas da casa para beijar e para rodar por todos os cantos com o fim de trazer boa sorte e afastar os malefícios.

Manduca Evêncio também refere as andanças da Folia do Divino, outrora, na “vetusta Barra de São Mateus”, hoje Conceição da Barra. E conta que os foliões, ao se aproximarem das casas que iam visitar, “na distância mais ou menos de cem metros principiavam a entoar quadras, solicitando licença, que era imediatamente concedida por meio de bombas e outros fogos de artifício”. E prossegue:

Além das espórtulas mais ou menos valiosas, era oferecida [aos foliões] farta refeição e hospedagem, com a celebração de ladainha, que quase sempre terminava por diversão dançante. [...] Reza a tradição que era costume, em tempos recuados, oferecer o festeiro, ao povo [no dia do Divino], farta mesa de iguarias ou doces, em nome do Imperador e da Imperatriz da festa, que era um casal de filhos do festeiro, vestido a caráter, os quais presidiam ao banquete, tendo assistido à missa em trono adrede preparado.

Em Marataízes, Renato Pacheco assim descreve a festa a que assistiu, em 1952:

A festa serve para prestar homenagem ao Divino Espírito Santo e, segundo a voz geral, é “antiguíssima”, constando de regata, no primeiro ou segundo domingo de março, a qual é animada por inúmeros cânticos tradicionais. [...] Cumpriu-se à risca o seu programa: passeata do Divino Espírito Santo até a igreja, o qual era, reverentemente, beijado por seus fiéis adoradores, missa solene, regata até o alto mar, em enfeitadas barcas, homenagem ao Divino Espírito Santo, em terra, barca por barca, barraca por barraca, e finalmente a grande procissão.

No alto mar, segundo informação dada a Renato Pacheco por José Severônico, rende-se homenagem aos que lá morreram cantando-se estes versos:

Segura, meu devoto,
Segura esta bandeira.
Segura com sentimento
Sobre os nossos companheiro…

Segura, meu devoto,
Segura regulá,
Para Deus tê salvação
Quando fô pro alto mar.

Tripulação de cincomes
Com prazê e alegria
Pedimos a Deus que nos livre
Pra fazê pescaria…

Na Festa das Canoas de Marataízes, por três vezes apreciamos a movimentação da Folia do Divino, com o Alferes da Bandeira, o Caixa e duas ou três pessoas mais, que formam o pequeno “coro” da Folia. Ouvimos, então, algumas das cantorias que entoam, geralmente improvisadas (tal como verificamos, também, por duas vezes, ali em Viana). Um solista puxa ou tira a louvação, enquanto o grupo repete os versos, alongando-os nas sílabas finais, quando não encaixam no fecho uns ais ou ois espichados e doloridos:

Cantoria do Divino
oi dá pena e faz chorá…
oi quem não tem pai e mãe
oi nesta hora vai lembraaaá…

Ô meu sinhore são fulião, ai,
oi vamos nós tê paciência,
oi o Divino está nas mão, ai,
oi pode fazê a fulia…

Eu tenho fé no Espírito Santo
Eu tenho fé no Espírito Santo,
oi ele é quem nos criô…
oi vem meu Deus com alegriaaaa,
oi percurando os seus devoto,
oi fez varão e se assentô, ai…

A cantoria do Divino é lenta, demorada e monótona, fazendo-a mais espichada a repetição que dá em cada par de versos da quadra. O único acompanhamento é feito pela caixa, batendo a baqueta ora no couro esticado, ora nas bordas de madeira do tambor. Batidas fortes como se diz naquela adivinha que, há tempos, nos disse o velho Leonídio Ataíde, de Camboapina, cuja resposta é a caixa da Folia do Divino Espírito Santo:

A pele de um animal
Do outro bem informado,
Para dar o que falá
Há de ser bem espancado.

Leio agora o programa da Festa do Divino a ser realizada ali em Viana. E vejo, satisfeito e tranqüilo quanto à persistência da tradição (ou de parte dela) que, tal como outrora, haverá o Imperador e a Imperatriz do Divino, com a Coroa e o Cetro, presentes na procissão que hoje desfilará, às 14 horas, reverenciando o Espírito Santo, simbolizado na Pombinha que se encarapita na ponta da bandeira vermelha, enfeitada de mil fitas coloridas…

[Fonte: A Gazeta, 05.06.1960]

A Festa do Divino em Viana - ES

     A primeira festa realizada nesta Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição - Viana, depois da inauguração, foi 
a do Divino Espírito Santo, a 7 de julho de 1817. É uma manifestação cultural comum nas Ilhas dos Açores, 
sendo mantida tradicionalmente em Viana até hoje, desde 1817. É a mais importante festividade religiosa na 
comunidade, sendo sua data móvel entre maio e junho, conforme o calendário anual de dias santos.
     Única manifestação cultural açoriana restante no município, é a Festa do Divino Espírito Santo. 
     Através de sorteio, são escolhidos um imperador e uma imperatriz. A véspera da festa é dedicada à imperatriz. 
     A procissão sai da casa dela em direção à Igreja Matriz. O dia seguinte é dedicado ao imperador e a comunidade 
vai buscá-lo em casa com o seguido da procissão.
     Antigamente o imperador e a imperatriz promoviam uma festa ao redor da Igreja, com comidas e bebidas de 
graça à comunidade. Com o passar do tempo, os moradores passaram a coletar brindes para a festa, isso ao 
longo do ano. Em volta da Igreja são construídas barraquinhas que comercializa, guloseimas.
     Mesmo depois de 190 anos depois, a tradição ainda é mantida na Matriz de Viana. 
     As procissões do imperador e da imperatriz, a forma de sorteio, tudo é mantido como antes. 
     No pátio da igreja são montadas barraquinhas para vendas de bebidas (nada alcoólico) e comidas, além do 
tradicional almoço comunitário.
     O que se observa hoje é que a festa além de cunha religioso também é social, pois é um momento onde 
várias pessoas e famílias se reencontram em um momento fraterno de descontração. 
Padre Adenilson Schmidt
Imperador: Márcio Balestreiro de Oliveira
Imperatriz: Ednéia Pereira Barbosa


Ludson Cavatti
Viana/ES 
"Toda história tem um fim, mas na 
vida, cada final é um novo começo"

 

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