| A VERDADEIRA FESTA DO DIVINO
A comemoração mais antiga no interior do Estado de São Paulo Texto e fotos de Sérgio Eduardo Sakall Enquanto ele falava, notei que o segundo botão de sua camisa estava faltando... Aquele senhor de 60 anos, com quem conversei, era mineiro. Disse que depois de ter morado vários anos em Jacareí, agora, estava radicado em Taubaté. Contou-me que já levou muita boiada por aquelas terras. Também que todos os anos vem a cidade de São Luís do Paraitinga para assistir à Festa do Divino. Disse que desta vez não se esqueceu de sua “marmita”, pois no ano passado teve tanta gente por lá que a comida acabou, até passou fome, contou-me. Bem, a parte que conheci o senhor Alcides em frente a Catedral de São Luís do Paraitinga, eu estava na cidade para fotografar a famosa Festa do Divino Espírito Santo, que acontece cinqüenta dias após a Páscoa ou na primeira semana de Junho... Oficialmente, a cidade foi fundada em 1769, pelo sesmeiro Manuel Antônio de Carvalho. São Luís é chamada por muitos de “Último Reduto de Caipiras”, pois nenhuma cidade do Vale do Paraíba se empenha tanto em conservar seus costumes. Terra do médico sanitarista Oswaldo Cruz, a cidade possui o maior conjunto arquitetônico representativo dos séculos XVIII e XIX do Estado de São Paulo. Incrustada na serra do mar, entre os municípios de Taubaté e Ubatuba, o seu povo festeja sua tradição folclórica, resistindo culturalmente até os dias de hoje. Em São Luís do Paraitinga, a cultura popular se faz presente em todas as festas. A cidade vive um calendário de manifestações religiosas e profanas, cujos maiores expoentes são: a Festa do Divino e o Carnaval. A Festa do Divino é secular e foi introduzida no Brasil pelos portugueses. Hoje, é um misto de festa religiosa e tradicional com uma folia quase carnavalesca. Tem de tudo um pouco: procissões e novenas, apresentações de grupos musicais e folclóricos, o casal de bonecos gigantes e o Afogado – prato típico muito apreciado – é um cozido de carne feito com mais de 20 bois, servido ao povo todos os anos. O casal de bonecos gigantes: João Paulino e Maria Angu, há mais de um século, está presente nas festas religiosas e profanas da cidade. Conta-se que o casal teria sido feito, a primeira vez, por um português chamado João Paulino, pela falta de diversão às crianças na festa do Divino. João era casado com dona Maria – a qual vendia pastéis de Angu – nome acrescentado ao de sua parceira. Os bonecos sobreviveram a seu criador, tornaram-se uma tradição e, ainda hoje, correm pelas ruas divertindo, sobretudo, a criançada. Na festa há Cavalhada – dois grupos de cavaleiros vestem uniformes com fitas e adornos, de cores diferentes. Dançam e desenham evoluções representando um combate. Também há Dança das Fitas e o balaio. Já no Moçambique, que era a dança predileta dos escravos africanos, o grupo executa um sapateado ritmado e monótono, trocando no ar golpes de bastão e cantando estrofes que louvam São Benedito e Nossa Senhora do Rosário (santos de devoção dos escravos). Paralelamente à Cavalhada, mas sem participar da encenação, aparecem os Mascarados: cavaleiros fantasiados cuja função é a diversão e brincadeira. Conhecidos também como "Curucucús", por causa do som que emitem, são pessoas que se vestem com máscaras, roupas coloridas, entre outros. Não se sabe a origem destes personagens, os quais são encontrados em todas as Cavalhadas do Brasil, com diversas diferenças entre as cidades. Eles se fundem com os mouros e cristãos num trinômio perfeito. Representam o papel do povo e daqueles que não tem acesso a pompa dos Cavaleiros (os quais significam socialmente a elite e o poder). São irônicos e debochados, fazendo críticas aos poderosos e ao sistema. E, ao contrário da rigidez dos Cavaleiros, entre os Mascarados não há regras, tudo é permitido, menos mostrar a cara. A culinária de São Luís do Paraitinga é muito especial, com receitas seculares para pratos de nomes curiosos como Cambito com Batata, o Pastel de Angu e o Afogado. Não deixe de ver a Catedral, a Igreja do Rosário, o Mercado Municipal e o Museu (onde Oswaldo Cruz nasceu). Participe da festa do Divino, vale a pena!
Informações:
Calendário das Principais Festas da Cidade: CAVALHADA É uma espécie de teatro folclórico feito a cavalo. Representa uma guerra religiosa entre cristãos e mouros, organizados em dois grupos de cavaleiros, cada um com seu rei, embaixador e soldados. Os cristãos são Carlos Magno e os Doze Pares de França; os mouros, o Sultão e seu exército. Em alguns casos há um príncipe e uma princesa, a filha do rei mouro, que acaba raptada pelo inimigo e se torna cristã. Fazem parte da trama dramática as embaixadas: mensagens insultuosas por meio das quais os embaixadores, a mando dos reis, incitam o adversário a mudar de religião. Naturalmente nenhum aceita e se inicia a peleja. Usando três armas, garruchas, lanças e espadas, os cavaleiros realizam batalhas, em campo aberto, simbolizadas pelas evoluções dos animais. Os mouros são derrotados e se convertem ao cristianismo. Aí, acontece o ritual do batismo, quando os cristãos se tornam padrinhos dos mouros. Todos ficam amigos e vão participar dos jogos de confraternização, como o das cabecinhas e o das argolinhas, que é o principal: os cavaleiros tentam retirar com a lança uma pequena argola pendurada numa trave, com os cavalos a todo galope. A argolinha é entregue a quem se queira homenagear e que retribui com um presente... As cavalhadas ocorrem em todas as regiões brasileiras. Os primeiros registros são de 1584, em Pernambuco. Algumas só têm o jogo de argolinhas, como no Nordeste, onde os cavaleiros correm disputando prêmios. Outras podem se resumir a um cortejo com funções religiosas, assim como acontece em São Luís do Paraitinga... Capela das Mercês: Construída no fim do século XVIII. Uma das primeiras edificações da cidade, suas paredes estruturais permanecem em taipa-de-pilão. A ladeira das mercês é composta por pedras retiradas do Rio Paraitinga, feita pelos escravos. Compõem a ladeira um painel de pintura em azulejo e o Chafariz que integra o Projeto Resgate da Memória. Igreja do Rosário: Construída no Séc. XIX e edificada em estilo eclético, predominando o gótico decadente. Construção em taipa sobre alicerce de pedras da região. Na lateral direita a Igreja é cercada por um muro de pedras construído por escravos. Hoje compõe o Largo do Rosário uma praça e um Chafariz, com monumento em homenagem ao teatro. Casa de Oswaldo Cruz: A casa onde nasceu Oswaldo Cruz foi construída em 1834 em taipa-de-pilão, com paredes internas de pau-a-pique. Hoje funciona como Centro Cultural, reunindo nas suas dependências a biblioteca municipal, salas para exposições e um auditório. Como parte do acerco, conta com uma exposição de 10 quadros de artistas renomados, doados pelo MAM. Mercado Municipal: Construído em 1835 pelo Barão de Paraitinga. Possui a forma de um quadrilátero todo em arcadas, com a parte central inteiramente descoberta, espaço que se destina à venda e troca de mercadorias. O Mercado Municipal funciona como ponto de encontro entre a população urbana e a rural, além de ser local de divulgação da musica local, já que é sede do "Encontro de Artistas Populares". Arquitetura Rural - Fazendas Históricas: Os fazendeiros da elite, produtores do café local, espelhando-se nas construções rurais do Vale do Paraíba Fluminense, incorporaram alguns detalhes simplificados, como: moldura, pestanas capiteis sobre pilastras e a preferência por edificações em dois pavimentos. As fazendas antigas do município correspondem ao século XVIII e XIX. Abertas à visitação apenas: Boa Vista, localizada no bairro de Santa Cruz, a 16 Km de São Luís, e Paineiras, no bairro do Rio Claro, a 10 Km da cidade. Fazenda Azul - Primeira fábrica de tecidos. José Joaquim Maia (pai que comprou a fazenda). Vicentina Maia da Silva (filha – foi quem deu a entrevista). AFOGADO
Receita para seis pessoas:
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