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O milenarismo joaquimita
Convirá aqui relembrar que para o abade cisterciense Joaquim de Flora, que viveu entre 1135, (?) e 1202, eram três as idades em que se dividia a história da Humanidade, como três são as pessoas de Deus: Idade do Pai, Idade do Filho e Idade do Espírito Santo. Esta concepção da História, exposta nas suas obras e comentada e amplificada. pelos seus seguidores, decorria de duas experiências de iluminação mística, que relata, talvez ainda de uma terceira a que faz alusão, através das quais lhe foi revelada a estrutura trinitaria da evolução das eras. A originalidade de Joaquim de Flora, como sublinha Marjorie Reeves na Engclopedia of Religion (Nova Iorque, 1987), estava em considerar que a terceira idade ainda não chegara; a Igreja, ao invés, entendia ter começado já o tempo da Graça, após o tempo que antecedeu a e o tempo que se submeteu à Lei. Joaquim de Flora previa para breve para o ano de 1260, o fim da segunda idade, que fora marcada pela expansão da religião de Cristo e pela fortaleza da sua Igreja romana e católica, a qual, entretanto, dava já sinais evidentes de grave decadência. O vaticínio joaquimita do fim iminente da Idade do Filho e do advento da Idade do Espírito Santo, que seria alcançada após a tribulação do maior de todos os Anticristos (a sétima cabeça do dragão), não podia deixar de provocar a resistência da Igreja, enquanto instituição, e de inflamar, ao invés, os espíritos sequiosos de renovação e de liberdade, num arroubo de que sairiam os grandes movimentos proféticos e milenaristas do fim da Idade Média. Uma imensa vaga, a um tempo criadora de um novo ardor religioso e transportando um espírito de subversão das instituições, percorreu a cristandade, entusiasmando não apenas os grupos "heréticos" – como os fraticelli, os beguinos provençais, e muitos outros –, mas também muitos dominicanos, agostinhos e, sobretudo, franciscanos. Os ecos desse clamor repercutiram longamente na Europa, influenciando directamente as concepções religiosas, sociopolíticas e filosóficas de numerosos escritores e pensadores até aos séculos XVIII e XIX, como Lessing, Michelet, Edgar Quinet, Pierre Leroux e Georges Sand, entre outros, e, indirectamente, uma boa parte do substrato ideológico ocidental da Renascença ao romantismo; certos estudiosos modernos consideram, inclusive, poder incluir-se o marxismo, com a sua utópica sociedade sem classes, e o nazismo, com o seu III Reich, ou terceiro império (que duraria mil anos), no rol das consequências remotas e perversas dos milenarismos joaquimitas. A profecia do abade calabrês comportava a revelação próxima do Evangelho Eterno, que um franciscano proclamou com grande escândalo ser constituído pelos próprios escritos de Joaquim de Flora, e anunciava a entronização do Papa Angelico . Os fundamentos escripturários para o profetismo joaquimita eram encontrados em Isaias e na conhecida profecia de Daniel ao rei Nabucodonosor (tão grata ao padre António Vieira), na qual se revelava o desmoronamento sucessivo de quatro impérios, simbolizados pelos metais de que era feita a imensa estatua sonhada pelo rei, que assistia, no sonho, ao seu desabamento; metais onde alguns exegetas viam correspondência simbólica com os impérios assírio, persa, grego, alexandrino e romano; e assim se fazia o anuncio misterioso de um Quinto Império – que jamais será destruído e cuja soberania jamais passará para outro povo, pois submeterá e aniquilará todos os outros e submeterá eternamente (Daniel, II, 44). Tratava-se do Reinado final de Cristo na Terra, que durara mil anos, segundo o computo feito pelos exegetas milenaristas do Apocalipse de S. João – mil anos de paz, de liberdade, de amor fraternal e de espiritualidade suprema, verdadeira e derradeira Idade de Ouro do ciclo histórico da Humanidade. No seu extraordinário ensaio Tradition de Age d´Or et créativité portugaise, lido no Colóquio de Nova Deli de 1987, o eminente antropólogo Gilbert Durand estuda as origens e o desenvolvimento dos mitos de Saturno, dos quais decorre o mito da Idade do Ouro, mitos que ganharam entre os Latinos todas as suas conotações para a civilização ocidental. Deus do principio dos tempos e da Idade do Ouro inicial, Saturno e também o deus do fim dos tempos e do regresso ao princípio, cuja festa – as Saturnais – se situava, como muitas festas de renovação, no solstício de Inverno: eram folguedos de grande alegria, durante os quais se trocavam prendas, (costume que subsiste no nosso Natal) e, traço importantíssimo, invertiam-se e subvertiam-se as hierarquias: os escravos tomavam o lugar dos senhores, as mulheres assumiam funções reservadas aos homens, etc. O cristianismo anexou o simbolismo das Saturnais, colocando na sua data o nascimento de Cristo, transformando os folguedos da inversão renovadora nas festas de loucos, nas tradicionais cegadas, bem conhecidas do nosso povo, que tanto inspiraram Gil Vicente – ainda sobrevivem algumas, como as de Santo Estevão, em Trás-os-Montes –, e também, com transposição do calendário, nas folias subsequentes a festa do Corpus Christi e nos cortejos de foliões da festa do Espírito Santo; a coroação pré-cristã dos reis da festa deu lugar á festa dos Reis (ou Epifania). Não se pode desenvolver aqui sequer os traços mais salientes da riquíssima constelação dos mitologemas saturninos, mas pensamos que estas brevíssimas notas ajudam pelo menos a situar a significação do culto do Espírito Santo no firmamento mítico do cristianismo e no horizonte do imaginário português como culto, profundamente marcado por Saturno, da abertura de uma nova e última era, prometida nas profecias de Isaias e de Daniel e pela exegese joaquimita do Evangelho e do Apocalipse de João. O culto do Espírito Santo, entendido como promessa de uma nova Idade ou Império espiritual, foi revitalizado pelas fraternidades franciscanas, que foram, como S. Bernardino de Siena o demonstrou com ardor paradigmático, as grandes propagandistas do joaquimismo (inclusive afrontando Roma); se como culto gibelino de índole templária fracassou essa esperança de um novo Império romano - germânico, que a destruição da Ordem do Templo iria tornar definitiva, os ideais não desapareceram, pelo contrário, perduraram na rica floração literária do ciclo do Graal – ciclo que conheceu no reino de Portugal um sucesso imenso, testemunhado pelas versões portuguesas da Demanda, do Livro de José de Arimateia e do Merlin e pela popularidade dos heróis do ciclo arturiano. O culto do Espírito Santo ocupou no nosso imaginário o lugar de um astro central, perceptível em várias das mais altas obras de arte dos séculos XV e XVI, o século de ouro, que culminou com D. Manuel, e bem visível ainda no século seguinte, embora dramaticamente metamorfoseado nas Esperanças de Portugal, quando o culto estava já proibido, esperanças que eram as do Quinto Império, declaradas no verbo ardente do padre António Vieira, o imperador da língua portuguesa (como o designou Fernando Pessoa, esse outro astro que cantou no nosso século a esperança do Quinto Império redentor).
O espírito franciscano
Voltemos um pouco atrás e examinemos, essa outra coordenada essencial do complexo de onde brotou a vocação espiritana dos Portugueses: o franciscanismo. Também em Portugal o franciscanismo veio corroborar o novo espírito do tempo e dar carne, sangue de martírio e aura devocional à idéia de fim de ciclo e de entrada numa nova era; chegou a ver-se em S. Francisco o Cristo redivivo, vindo à Terra para pregar o Evangelho Eterno dos novos tempos; e não esqueçamos que Santo António de Lisboa foi um vulto eminentíssimo do primeiro fervor franciscano. A intensidade mística e ascética, a entrega total a uma vida de pobreza absoluta, a predicação de um amor fraterno entre os humanos e do ideal renascido de uma pureza luminosa, toda marcada pela graça do Espírito Santo, tiveram entre nós um eco imenso. Entre a vida económica, ansiosa de alargamento no planeta, e o espírito religioso, de estreito confinamento, dominante até ao século XIII – afirma Cortesão –, existia uma situação nitidamente antitética. A S. Francisco de Assis, ou melhor, ao franciscanismo, soma das tendências e dos esforços da nova Ordem religiosa, se deve a conciliação entre os dois conceitos – síntese do espírito que dilatou o cristianismo a Natureza e libertou os povos do Ocidente do entrave que os impedia de se alargar a todo o mundo. Assim se compreende que a nova Ordem dos Franciscanos encontrasse desde o começo tão grande fervor entre a burguesia e, por forma geral, entre as classes populares, e houvesse de sustentar tão ásperas lutas com o clero secular e as outras Ordens. As comunidades religiosas anteriores, recluídas à cela, ao claustro e à cerca, reflectiam o regime da economia privada em que nasceram.
A Ordem de S. Francisco, Ordem de pregadores, missionários e viajantes que se propunham viver fora do claustro, levar o verbo e o exemplo de Cristo ao povo e aos infiéis, corresponde, pelo contrário, ao novo regime urbano e mercantil, as ambições expansionistas da burguesia e as reivindicações igualitárias do povo do pré-Renascimento. Cristo, multiplicado em milhares de apóstolos, baixava da cruz para percorrer o mundo. Tornava a misturar-se aos pobres. A Terra transformava-se numa vasta e luminosa Galileia. E os homens voltavam à experiência transfiguradora dos discípulos de Emaús. Já o alemão Thode afirmara que os Franciscanos haviam criado um novo cristianismo, uma religião verdadeiramente apropriada ao povo. Mas os Franciscanos fizeram mais do que isso, pois levaram o espírito de amor pela Natureza às suas naturais consequências no âmbito da especulação e da procura cientifica, filosófica e política. (Ao mesmo tempo que os mendicantes, predicadores e menores animaram o evangelismo popular), escreve J. G. Bougerol no seu estudo sobre St. Bonaventure et la sagesse chrétienne, (Paris, 1963), encabeçaram também a renovação da Universidade. Desde S. Boaventura a Guilherme de Ockam, nenhuma outra Ordem deu origem a uma plêiade tão numerosa e original de sábios e filósofos, escreve por seu turno Jaime Cortesão; enquanto os Dominicanos, cujo representante máximo foi S. Tomás de Aquino, se conservavam fiéis defensores do princípio da autoridade à custa do espírito de independência, verdadeiros conservadores dentro da Escola, os Franciscanos representam o estimulo renovador, a tendência à observação da Natureza e as aspirações à liberdade individual. Para o historiador português, a mística dos Descobrimentos é de origem franciscana. Ora, desde a primeira metade do século XIII propagou-se entre os Franciscanos a heresia dos irmãos espirituais, que exigiam a estrita observância da regra de S. Francisco, em particular o voto de pobreza, em breve seguidos pelos fraticelli, todos eles adeptos fervorosos do joaquimismo e crentes de que estava iminente o advento da Idade do Espírito Santo; os irmãos espirituais seriam a alma dos tempos Novos, os apóstolos que alargariam a fé a todo o planeta e a toda a Humanidade. E Jaime Cortesão acrescenta que o misticismo exasperado dos espirituais, que se particularizou pela estreita colaboração com os príncipes laicos e pelo culto do Espírito Santo, inspirador do apostolado cristão em todo o mundo, foi, ao que se pode dizer [...], a forma própria que o franciscanismo tomou em Portugal na época que precede, prepara e explica a empresa dos Grandes Descobrimentos. É no cruzamento de antemão imprevisível destas coordenadas; profetismo joaquimita e movimento dos espirituais franciscanos, tendo por pano de fundo a vocação templária da Lusitânia e por quadro natural a sua posição geográfica frente ao oceano propicia à meditação do fim de todas as coisas da todas as coisas da terra e ao anelo de outros mundos e outros céus, que iria florescer o culto do Espírito Santo; culto que faz prevalecer a iluminação de cada um, em dialogo intimo com Deus, sobre os rituais apontados à exteriorização colectiva sob a direcção de uma casta sacerdotal que se arroga o exclusivo da inspiração divina; culto que simbolicamente coroa Imperador do mundo vindouro, unificado pelo Espírito Santo, um homem do povo ou uma criança, restituindo ao Poder uma inocência só possível nessa futura Idade de Ouro final, culto que liberta os presos, que senta todas as classes a mesma mesa fraternal para o bodo do mesmo vinho, da mesma carne e do mesmo pão; enfim, culto que prepara a vinda do Paracleto, o Consolador do Fim da História.
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