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Os Impérios
O que valia às gentes dos Mosteiros nos momentos de descrença, eram
as suas profundas tradições, enraizadas na fé cristã. Como a festa
dos Impérios que fazia sentir deslocado quem não fosse filho da
terra.
No primeiro Domingo a seguir à Páscoa inicia-se as festas do
Espírito Santo, mas é ainda na missa de Domingo de Páscoa que é
indicado o conterrâneo que por sorte calhou a 1ª Dominga. Este leva
consigo o espírito santo para sua casa, representado pela coroa e
pela pombinha em prata e por duas bandeiras alegóricas. Num quarto
de sua casa é montado um altar com flores e um trono onde é
depositada a coroa. À volta são dispostas velas e muitas flores.
Todos os dias rezam o terço, pelo que, uma hora antes sobem
roqueiras no céu para chamar os fieis.
No Domingo seguinte, seguem em procissão para a igreja. Vão muitas
crianças com arranjos florais e os convidados de fatos domingueiros.
A coroa e o ceptro são transportados numa almofada de veludo e
ladeados por duas raparigas solteiras que levam para oferecer a
Maria ramos lindos de azáleas. As bandeiras vão ao centro, uma atrás
e a outra à frente.
Na igreja, no fim da eucaristia o Sr. Padre benze a coroa e coloca-a
na cabeça da pessoa coroada com cânticos em latim. A seguir dá a
beijar o ceptro e entrega em mãos.
No fim da cerimonia, regressam em procissão com a banda filarmónica
a tocar no seu encalece. Em casa do coroado, espera-os um beberete
especial, com massa e vinho de cheiro.
Durante a semana da respectiva dominga, agrupam-se jovens com viola
que tocam e cantam à desgarrada. Natália nesses convívios gostava de
jogar ao bolo com a mocidade.
As sete Domingas do império são sorteadas de um ano para o outro no
arraial que se faz ao fim da 7ª dominga. Cabe a quem sai a dominga,
nomear alguém, normalmente um jovem elemento da família, para ser
coroado.
Com efeito, ao longo dessas cerimónias, umas são mais belas que
outras, e isso deve-se ao empenho e riqueza colocada na procissão.
Quase sempre o mordomo é aquele que tem a ultima coroação
coincidente com o dia do Espírito Santo ou dia do Império, nesse dia
por força das circunstancias, é requerido um cortejo maior e mais
vistoso.
À tarde, depois da missa, abre o arraial em força onde são
angariados fundos para as despesas do ano seguinte. São arrematados:
bolos de massa cevada, galinhas, coelhos etc. O mordomo transporta
abastados bolos de massa em cestos de verga que oferece a acompanhar
com vinho, ao mesmo tempo a banda sobe ao coreto para tocar bonitas
melodias populares. No adro da igreja ficava o teatro do império
junto à grande aerocária, onde permanecia o divino Espírito Santo
durante o arraial.
No fim do arraial o povo junta-se em frente da igreja onde é exposto
também o Divino Espírito Santo. As bandas ocupam os seus lugares em
lados opostos da escadaria.
Quem se candidatou ao sorteio, sobe uns degraus ao ser chamado pelo
nome e retira uma rifa do vaso que contem a indicação da dominga ou
da dádiva de pão ou vinho que lhe coube em sorte.
A associação das festas, Constituída pelos homens da terra mais
influentes, nomeia entre si aquele que julgam mais capaz para ser o
próximo mordomo. Ele vai ser um mouro de trabalho a organizar o
evento. Percorre porta em porta, a indagar quem quer ter pensão, que
é paga consoante a quantidade das oferendas.
No Sábado antes do Império, desloca-se pelas casas dos pensionistas
em carros de bois que debitam das rodas de madeira uma chiadeira
estridente. Foram laboriosamente enfeitados com flores e ramagens e
carregados com carne, Bolos de massa, vinho de cheiro e outros
produtos que são respectivamente entregues como uma pensão.
Na origem dessa tradição que se perdeu no tempo, essas oferendas
representavam uma obrigação moral que uma comunidade tinha perante
os mais desfavorecidos e pobres.
Quando sai uma dominga, toca a Fandanga se o contemplado for seu
simpatizante. Se for da Ceroula, aí vai Fundação Brasileira. Um
despique de rivais animado e alegre que faz parte da alma do povo
dos Mosteiros. Ao fim de sair todas as domingas, a banda à qual é
afecto quem ficou com a 1ª dominga, acompanha-o com a coroa do
Espírito Santo e os estandartes, sempre a tocar até sua casa, onde
permanece até S. Pedro, para depois ficar na igreja ao lado do Sr.
dos Passos.
Os pregõesMaria
José, já desconfiava do namoro. Ele frequentava a casa e era
hospitaleiramente contemplado com alguma coisinha melhor para
petiscar, às vezes com uns torresmos da caçoila que ele tanto
gostava.
De volta e meia, João Ferreira de Matos matava um porquinho que
criava nos fundos do quintal, dava muito trabalho tratar das
pocilgas que tinham que ser lavadas frequentemente para que o vento
não distribui-se pestilência pelos arredores, ele era muito
cuidadoso com essas coisas que podiam criar más vizinhanças e
depois, sabia bém uma morcela ou um chouriço para enganar a barriga.
A moça atarefada, não lhe prestava atenção, facto esse, que lhe
reforçava a ideia de ser a mulher ideal para educar filhos e tomar
conta de casa. A mãe era adoentada e Natália ajudava muito na lida
de casa. Albano gostava de estar com ela nos dias de cozer o pão,
ela subia para uma quarta e amassava a farinha na masseira, depois
dividia a massa por dois alguidares, para lhe ser mais fácil
trabalhar. Desde os 15 anos que cozia pão no forno e disso se
orgulhava. Maria José preocupava-se em acender o lume com canas e
vimes secos, protegendo a jovem daqueles calores terríveis e quando
as paredes do forno esbranquiçavam puxava com a pá as cinzas para o
borralho e deixava algumas brasas à portinhola para dar cor à côdea
do pão , a seguir a pequena entrava em acção depositando cada pão
por cozer com delicadeza e no rosto um sorriso grato por aquele
milagre de vida.
Desde que Albano fora transferido para a Ribeira Grande, deixaram de
se ver todos os dias. Aos fins de semana, quando folgava, ele e o
Almeida vinham por aqueles caminhos escuros, desde a Ribeira Grande
até aos Mosteiros. Uma vez, já noite escura, crendo encurtar
estrada, subiram pelos cerrados que desconheciam e perderam-se. Ao
passar entre o João Bom e os Mosteiros surgiu-lhes pela frente um
grande porco negro que lhes tomou a peugada. Assustados de morte,
deram corda às pernas até chegarem à rua do Passal. Aquilo parecia
coisas de feiticeiras.
O Almeida vinha roubar carinhos à bonita e iludida Ermelinda e o
Albano não hesitava em por na balança o peso dos sacrifícios que
passava para estar com Natália. A contagem decrescente para a
passagem à disponibilidade já tinha começado e o namoro já não era
segredo, mas as coisas complicaram-se e Natália vivia momentos de
ansiedade. O Lisboa não era homem para fugir às suas
responsabilidades e procurou agir com honradez para alem disso o
coração não o enganava. Por iniciativa própria foi a Ponta Delgada
ao Quartel General pedir uma licença de casamento. Apesar da
situação de embaraço e porque havia directivas militares nesse
sentido, não lhe concederam a requerida licença. Foi o sargento
Pacheco que o aconselhou a dirigir um requerimento ao Chefe de
Estado Maior onde solicitava fixar residência em S. Miguel após a
passagem à disponibilidade, permitindo-lhe assim resolver então o
seu problema.
No dia em que o seu Batalhão regressou ao Continente foi com alguma
tristeza que viu partir os seus camaradas de armas e os olhos
encheram-se de água. Por aqueles tempos, muitas famílias sentiram-se
traídas e desiludidas, aprenderam a gostar dos continentais,
ofereceram-lhes um lugar à mesa e permitiram os sorrisos ingénuos
das suas doces filhas. Os magalas tinham vencido a natural
desconfiança dos Açorianos, participavam nas bandas, festas e até
nas cerimónias religiosas. E agora, com a rapidez da morte, deixavam
tudo destroçado e muitas feridas para sarar por muitos anos. Que o
diga a Ermelinda que quando soube que esperava um filho do Almeida e
como este também se preparava para embarcar, venceu a vergonha e
plena de coragem fez uma participação da ocorrência que entregou no
comando do Batalhão 16, com a digna ajuda de Albano. Ela era menor,
e segundo a lei, ele teria que casar. Não crendo aceitar tal
imposição, ficou preso nos calabouços militares da Calheta. Não se
sabe como, mas conseguiu fugir para Lisboa, onde voltaria a ser
detido. Finalmente acabou por casar por procuração com a pobre
Ermelinda que era tão linda. Apesar das incessantes cartas, ele
nunca apareceu, pois tinha uma filha e companheira que o destino fez
deixar para trás quando o mobilizaram rumo às Ilhas. Da união
legitima, único consolo, nasceu um belo rapaz ao qual puseram o nome
de Martinho e que por tenacidade da mãe, não era filho de pai
incógnito. Ermelinda partiu para a América onde criou o filho e os
netos com grande sucesso. Trinta anos depois irmãos separados por
famílias e continentes encontrar-se-iam num acto de reconciliação
com o passado.
O estado de Natália inspirava preocupação e Albano queria tira-la de
casa antes que se soubesse. Ela ainda que insegura e receosa da
reacção de João Capelinha, manteve uma atitude firme e recusou
fugir.
Maria José, esteve dias, doente quando soube da novidade. De olhos
pregados no chão atravessava a ponte na direcção da igreja para se
entregar às orações, promessas e confissões. Foi então que o Lisboa
decidiu falar com o Padre Fernandes que era compadre de J. Capelinha
por ter sido padrinho de Sebastião. O compreensivo padre,
disponibilizou-se para ajudar a família Ferreira de Matos. E
juntou-os na sacristia para conversarem e consertarem as coisas. O
magala não o desiludiu, pois de inicio demonstrou com fervor boas
intenções, e para que não ficassem duvidas, foi com ímpeto de
elevado mérito que jurou sobre o sagrado livro cumprir com a
promessa de casar. O pai de Natália, ainda que magoado, sentiu-se
então reconfortado pelo respeito e a dignidade argumentada pelo
jovem. Com poucas palavras, saiu agastado, pronunciando ainda mais
as suas fartas rugas. Quando chegou a casa, mandou Sebastião chamar
a irmã, a pequena temendo uma reacção in tempestuosa, refugiou-se em
casa da Amélia. Nunca aquele bom homem lhe dirigiu uma palavra sobre
o assunto. Do que dizia ou não dizia, transpirava uma nobreza de
carácter e uma seriedade em absoluta grandeza.
Quando o Carlos nasceu, ele ficou muito contente e ajeitou no colo o
rapazinho de cabelos finos e louros e de olhos azuis que faziam
lembrar os da sua mãe, e com ternura beijou a sua face muito pálida.
O parto foi complicado, as dores já duravam à três dias e nem a
parteira da Areia, dava conta do recado. Muito nervoso, Albano pediu
emprestada a bicicleta do Mainel da Gróta e no escuro da noite,
pedalou exaustivamente até aos Ginetes com a finalidade de chamar o
médico. Por graça, não foi necessário, pois eram 22H15 do dia 14 de
Junho quando o preguiçoso gorducho decidiu espreitar. A parteira
transpirava quase tanto como a jovem mãe.
Como no dia seguinte Albano teve que regressar ao quartel na Ribeira
Grande, pediu para não o registassem sem que ele regressasse. Por se
ter apresentado com alguns dias de atraso, foi punido com cinco dias
de detenção. Por causa disso, teve nova licença, apenas algumas
semanas depois. Quando foram registar o bebé , já tinha ultrapassado
o prazo legal. O professor Antonino propôs então: que se atrasasse a
data de nascimento para um mês depois, dessa forma evitavam pagar
uma coima monetária. Natália ficou infeliz com a sugestão
apresentada pelo professor em deixar de fora o sobrenome “Ferreira”,
alegando que impunha uma carga pesada ao nome completo. O “Fragoso”
era mais que suficiente e o pai não se sentiu melindrado, nem se
apercebeu do desagrado de Natália, que tímida, nada disse. Foram
padrinhos: - D. Mariana e marido, Sr. José Martinho, pessoas muito
respeitadas. Eles gostavam mais do nome de Carlos Alberto, mas a mãe
dessa vez não se absteve e preferiu o nome do pai da criança, e
assim ficou registado com o nome de Carlos Albano Fragoso, agradando
dessa forma a ambos.
O resto do dia, foi passado nas sete cidades. O dia estava muito
luminoso e o trio gozava da harmonia dos raros momentos. A merenda
ia na cesta de verga por baixo do carrinho de bebé que o pai
entusiasticamente tinha concertado com peças de velharias. Bem ao
estilo Inglês, o primogénito ia protegido dos pingos, por uma capota
graciosa. Com o albano na frente a iluminar o túnel com uma pilha,
as rodas grandes guarnecidas de borracha, rodavam facilmente como se
tudo fizesse parte dum sonho. Que dia feliz!
Por causa das trapalhadas da burocracia, Natália e Albano, apenas
tinham casado pelo civil. Por cada dia que passava era uma
consumição e ansiedade. Os pregões, em resposta ao requerimento
enviado para Góis, não haviam maneira de chegar aos Mosteiros. O Pe.
Fernandes, cauteloso, não os queria casar sem a confirmação oficial.
O falatório alcoviteiro que um pouco por todo o lado era assunto,
aborrecia por demais o Lisboa. Exasperado e ferido no seu orgulho,
ultimou o Pe. F. a casa-los. Se fosse preciso, juntar-se-ia em
pecado com Natália. Perante isso o Pe. F. enviou um telegrama para
Góis onde questionava se; fulano tal…, estava desimpedido para
contrair matrimónio. Com grande alivio receberam a resposta algumas
semanas depois.
Foi numa segunda-feira da pombinha,Foi numa segunda-feira da
pombinha, a seguir ao Império, dia 1 de Maio de 1944 que juntos
entraram na igreja de Nª Sr.ª da Conceição para que Deus os unisse
até à morte.
Na sua meninice, sonhara com aquele dia, de forma diferente. O véu e
a grinalda deram lugar a um vestido simples e comum com um casaco
discreto. Os sapatos eram bonitos e novos e na mão, levava nada.
Nunca esqueceu aquele desgosto.
Foi um almoço ligeiro, com as mesas enfeitadas com luzidios bolos de
massa cevada. A carne foi maravilhosamente estufada com batatas e
acompanhada pelo guloso vinho de cheiro das pipas de João Capelinha.
Que boa recordação…
Por ironia do destino a resposta dos pregões foi recebida alguns
meses depois, em carta registrada com carimbos de extravio dos
correios de várias localidades do Continente e de outras nações
estrangeiras.
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