A
FREGUESIA DE OTA
E A SUA IGREJA DO DIVINO ESPÍRITO
SANTO
A "Corografia Portugueza" refere-se,
em 1712, à freguesia de Ota nestes
termos: " O Espírito Santo no lugar
de Ota que dista uma légua da Vila
de Alenquer, para o norte, é curado
anexo à Igreja de S.Pedro; tem 20
vizinhos, uma grande quinta de Pedro
de Figueiredo, o lugar de Aldeia com
12 vizinhos, a quinta da Torre, a
quinta do Archino, do marquês de
Arronches e um hospital para se
recolherem os pobres".
Com algumas, ainda poucas,
visitas que temos feito naquela área
do concelho de Alenquer, e com
informações e leituras que temos
recolhido e feito, somos hoje a
concluir que a quinta de Pedro
Figueiredo, é a quinta de Ota,
pertencente à Família dos Condes de
Belmonte, cujo apelido é Figueiredo
Cabral da Câmara. Quanto à quinta do
Archino, é pertença da Família dos
duques de Lafões.
A Igreja do Divino Espírito
Santo, de Ota é um templo simples
que, no entanto, reune um valioso
conjunto de azulejaria do século
XVII. Dispõe-se pelos silhares da
nave e na capela-mór revestem as
respectivas paredes. São do tipo
tapete, e a Igreja ainda mais
enriquecida e decorada fica com o
revestimento de azulejos que se
patenteia na face anterior do arco
do cruzeiro. Possui uma pequena mas
muito interessante pia de água
benta, de traça manuelina, pelo
canelado que apresenta em forma de
cintura, e por cima e por baixo a
pedra cinzelada forma desenhos de
cunhetes triângulares ou em bico de
setas. Poderá, no dizer dos autores
que mencionamos na fonte de pesquisa
nº 1, ser um testemunho de uma
igreja ou capela outrora ali
construída (tendo em conta o
manuelino de 1500). É que numa
parede junto às escadas de acesso ao
Côro, há uma placa memorativa da
reconstrução da Igreja em 1765, ou
seja depois do terramoto de 1755.
Essa placa faz referência aos condes
de Belmonte (1813-1894). Poderemos
pensar, que sendo a data de 1813,
próxima, mas posterior às invasões
francesas de Napoleão, que tanta
destruição deixaram, por templos,
casas e quintas, que bem poderá ter
sucedido uma nova reabilitação do
templo sob os auspícios dos condes
de Belmonte. Entretanto, é certo que
mais recentemente a Igreja voltou e
beneficiar de obras ao nível dos
tectos por iniciativa do
major-capelão padre Manuel Pires de
Campos, que vindo dos Açores,
substituiu o tecto anterior de
madeira, talvez já muito degradado,
por tectos de estuque, que achamos
estarem perfeitos.
Na capela-mór desta Igreja está
ao centro a bonita Imagem de Nª Sª
da Conceição (Padroeira de
Portugal), embora o orago seja o
Divino Espírito Santo. Lateralmente
estão as Imagens de S.Pedro e Santo
António. O tecto era, antigamente,
azul e nele estava presa uma placa,
que julgamos ser valiosíssima, do
Espírito Santo, com a pombinha, ao
centro a esfera do Mundo e de cada
lado julgamos ser Cristo, feito
Homem e S.Pedro. Esta placa está
hoje na parede do corredor de
ligação entre a sacristia e as
escadas do Côro. Depois, na nave da
Igreja, no seu corpo central, os
altares laterais possuem: à esquerda
uma invulgar, bem dimensionada, e
valiosíssima, julgamos nós, uma
Pietá, representando a mãe de Jesus
que com o seu braço direito segura o
braço direito de seu querido Filho,
cristo deitado no seu colo on
sobressai fulgurantemente as chagas
das mutilações nas pernas de Cristo.
Do lado direito estão. o Sagrado
Coração de Jesus, Nª Sª de Fatima e
S.José.
Por baixo do arco do cruzeiro, no
pavimento há uma laje tumular de
1567 em que o falecido ofereceu três
mil reis (3.000$000) e um touro. A
inscrição é sensivelmente a
seguinte: " E aqvi jaz Bastiam Pis
Lavrador e sva molher Ana Frs os
qvaes deixaram ho Espirito Sãto por
sva devaçam tres mil res e hum tovro.
Esta cepvltura e pera toda sva
geração . 1567 " . Fora da Igreja,
junto à entrada da porta principal,
há uma outra sepultura indicifrável,
que se julga ser do reverendo padre
J. F.co. do Rego e de 1691.
No largo circundante à Igreja, há
um monumento ao 4º Conde de Belmonte
e 14º Senhor de Ota, falecido em
1930, com 82 anos. É D.José Maria de
Figueiredo Cabral da Câmara,
proprietário que foi da Quinta de
Ota e agora de seus herdeiros. A
população quiz testemunhar a sua
gratidão e homenagem pelas virtudes
e respeito desta personalidade para
com as pessoas desta terra. O
monumento, com espaço circular
relvado e gradeado, consta de uma
coluna de pedra encimada pelo seu
busto em bronze, de autoria do
escultor D.Agostinho de Noronha.
Voltando, agora e ainda, à
história da vila de Ota, não podemos
deixar de referir que a povoação é
antiquíssima, porque segundo "A
Monarchia Lusitana ", o Papa
Celestino III, confirmou, em 1195, a
doação de Ota feita pelo nosso Rei
D.Sancho I aos frades do mosteiro de
Alcobaça. Estes frades tiveram,
ainda assim, aqui em Ota, uma acção
importante, em tempos em que não
havia tecnologia hidráulica, porque
souberam abrir extensa vala para
escoamento de águas do Paul, que em
anos muito invernosos, se retiam e o
seu encharcamento, porventura traria
ambiente pestilento, criando febres
palustres, ou sezões com as quais as
populações e animais muito sofriam.
Parece que, de facto, o Paul e o
pântano do Bunhal eram os
responsáveis por doenças e vítimas
nesta região. Esta extensa área da
freguesia de Ota é ainda
caracterizada por uma luxuriante
planura verde, prados e florestas
onde predomina o pinhal e o
eucaliptal. Possuiu sempre, no tempo
da monarquia, o privilégio de couto,
ou seja de ninguém caçar dentro das
matas de Ota, sem licença. Resultou
disso, conjugado com as atractivas
condições de isolamento pelas
manchas de floresta, ser lugar
propício a abrigo de ladrões e
malfeitores desses tempos, chegando
eles mesmos, talvez, a criar e fazer
moda com o ditado popular antigo "
Deus nos livre das sezões de Ota e
da justiça de Alenquer ". Tinham,
enfim, esses marginais medo da
doença e medo da justiça que seria
muito rigorosa, nessa época, pelos
vistos !
Entretanto,
julgamos que Ota terá beneficiado
com a proximidade da estrada real
entre Lisboa e Caldas da Rainha. O
marco de Mala-posta atesta a
circulação de diligências
transportando pessoas, haveres e
correio. Esse marco está situado à
entrada da vila e no cruzamento com
a estrada que vem de Meca e do
Bairro e memoriza o envolvimento da
Rainha D. Maria I, nestas obras de
comunicações terrestres, sendo
inspector de Obras e Estradas o
conde de Valladares. É datado de
1788 e Ota constituia o fim da 1ª
etapa com início no Carregado, na
época em que começou a circular o
comboio de Lisboa até ao Carregado.
Na Ota fazia-se muda de cavalos e a
entrega de correio. O edifício de
estação de correio de então ou de
anos posteriores, ainda existe, hoje
transformado para servir de sede da
Sociedade Recreativa Ota-Clube. (Uma
pequena nota à parte: um outro marco
de grande envergadura ainda existe,
na estrada nacional, adossado à
parede da quinta que está em frente
à empresa Martini & Rossi, na
Castanheira do Ribatejo; é desse
mesmo reinado de D.Maria, mas não
será tanto um marco mas antes uma
grande lage de limite provincial,
supomos.)
Também ficamos a saber,
consultando o jornal ilustrado "A
HORA" de 1934, num artigo assinado
por D. Vasco da Câmara Belmonte, que
à entrada ou próximo da quinta de
Ota, existiu e esperamos que ainda
exista um cruzeiro, em cujo local
existiu antes um pedestal mandado
erigir pela Rainha Santa Isabel,
conforme o dizem os autores da
colectânea "O Concelho de Alenquer"
que referenciamos nas nossas fontes
de consulta. A Rainha Santa, parece
que reunia aí as crianças a quem
dava doutrina da Igreja Católica e a
quem a quizesse ouvir, concerteza. A
cruz de pedra sobre esse pedestal
foi depois construída com 93 cm, por
D.José Belmonte, em 1874. E ainda
somos de imaginar que o nome do
lugar de Paços, possa estar de
alguma maneira, relacionado e
lembrado com o facto de a Rainha
Santa ter tido os seua Paços, na Ota
e talvez, quiçá, mesmo nos edifícios
da Quinta de Ota.
Fontes: 1- "O Concelho de Alenquer",
dos Profs.
António de
Oliveira Melo, António
Rodrigues Guapo e
Padre José Eduardo
Ferreira Martins.
2- Alemquer e o Seu
Concelho, de Guilherme
João Carlos
Henriques l873.
Carlos Nogueira
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