Neste fim-de-semana completam-se
50 dias após a Páscoa e
celebra-se no cristianismo o
Pentecostes, a vinda do Espírito
Santo, o Paráclito (o advogado
dos homens enviado por Deus). A
festa mais característica do
Cultura Açoriana, não só por ser
de cariz religioso, mas
sobretudo por, expontaneamente,
partir do povo de todas as ilhas
e freguesias do Arquipélago e
com tal intensidade que foi
imposta ao clero nos moldes
definidos pelos ilhéus e não o
inverso.
A força das festas do Espírito
Santo radica na necessidade do
Açoriano ter um protector ou
defensor contra os sismos,
vulcões e intempéries, pelo que
talvez seja esta a celebração
religiosa em Portugal mais
marcada pelos condicionalismos
geológicos do que qualquer
outra, por isso não admira que
em paralelo circulem os
numerosos "milagres" que
justificavam o agrado do Divino
perante esta oferenda do Povo.
A festa do Espírito Santo é
sobretudo uma celebração da
esmola e da partilha de
alimentos, não só pelos mais
necessitados, mas também pelos
que estão mais próximos, os
habitantes da mesma localidade e
os amigos. São organizadas
através instituições -
irmandades, que entre si
e num sistema diversificado
seleccionam o
irmão que organiza a
festa em cada ano.
O Espírito da Santo é
simbolizado por uma
coroa imperial e um
estandarte, a festa é
precedida pela dádiva de esmolas
(num ambiente mais privado) no
dia ou na véspera, prossegue com
um cortejo da casa do
organizador da festa -
mordomo, em direcção à
igreja, onde é, frequentemente,
invocado o Espírito para
protecção através da imposição
da coroa sobre o mordomo ou
familiar.
T
erminada a cerimónia religiosa
segue o cortejo novamente para o
local sede da irmandade - o
Império, embora
noutras ilhas possa possuir
outros nomes como
Treato (3 actos, de 3
dias de festas ou terceira
pessoa da Trindade).
No império a coroa é colocado no
altar e o mordomo serve uma
refeição a todos os membros da
irmandade e convidados em louvor
do Divino, com
Sopas do Espírito Santo,
cujo corpo central da receita é
comum às várias ilhas,
massa sovada (uma espécie de
pão doce rico em ovos, limão,
especiarias e manteiga), arroz
doce e vinho, a festa pode
prosseguir com os arraiais
típicos das festas rurais.
Relatos de correntes de lava que
se desviaram perante a exposição
da coroa do Espírito Santo,
escoadas lávicas que bifurcaram
de modo a manter vivo o gado
destinado às esmolas e às sopas,
crises sísmicas que não
afectaram os locais onde se
encontrava a coroa, milagres de
multiplicação das sopas de
mordomos perante um número
inesperado de presenças e
protecções asseguradas contra o
galgamento do mar em tempestades
devido à intervenção Divina,
abundam em todas as ilhas,
alguns casos facilmente
explicáveis, outros nem por
isso, histórias que misturam a
lenda com a realidade do passado
que mantém viva a fé neste
culto, mas sobretudo que importa
recolher e guardar por fazerem
parte do Património Imaterial da
Cultura Açoriana.




